terça-feira, 24 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...



Obs: final da história das ultimas três postagens.
 
4
 Larry o seguiu até o terreno baldio já estava bem escuro, as nuvens tapavam a lua tornado a noite ainda mais densa, James parou em frente ao terreno, escorou-se ao lado de um pequeno prédio onde ficou praticamente fora de vista, mesmo quem passasse pela rua dificilmente o perceberia.
Não tardou a avistar Robert, acenou e foi a seu encontro. Ele estava praticamente no mesmo lugar.
– Ele continua no mesmo lugar – perguntou Larry
– Sim, – respondeu Robert – como havia lhe dito ele só sai se algum homem passar por aqui.
– É eu me lembro. Na verdade tenho que lhe contar algo muito estranho que aconteceu hoje – e Larry contou a Robert tudo o que havia acontecido desde o encontro na rua, o papagaio até chegar ali, Robert ouviu tudo com atenção e assombro.
– Sabe não duvido de mais nada e houve um tempo que iria rir de tudo isso que você falou, mas diante das circunstancias. Para ser sincero hoje a mais ou menos uma hora atrás dois homens vieram aqui usavam também o colarinho romano acho que eram padres, na verdade um deles se parece muito com o que você descreveu, eles olharam o terreno por um, tempo pareciam olhar exatamente para onde o monstro está, mas não entraram no terreno. Depois tive a impressão que olharam para mim, então voltaram e entraram naquele carro. – disse apontando para um carro não muito longe com os vidros escuros que impedia de se ver o interior, estava estacionado entre outros dois carros não parecia suspeito.
– Como lhe falei eles não nos vêem mas podem sentir. – explicou Larry – vou até lá e olhar dentro para vêr se é o mesmo padre. – Robert acenou com a cabeça mas ficou no mesmo lugar.
Ao chegar no carro Larry enfiou a cabeça pra dentro através do vidro e não teve dúvidas era o mesmo padre. Eles olhavam em direção a James, mas quando ele chegou perto por um momento eles desviaram a atenção.
– Ele não está mais lá – disse Abdias olhando novamente para onde estava James.
– Onde ele pode ter ido – perguntou desorientado o padre.
Larry também não o via mais, mas antes que pudesse formular qualquer hipótese James surgiu aparentemente do nada pulando no capo do carro e com a espada medieval quebrou o pára-brisa do carro.
– Vieram me espionar?  Acharam mesmo que não os perceberia aqui?
Sem responder os padres desceram do carro atônitos.
– Estamos aqui pelo mesmo motiv... – começou a responder o padre, mas antes de terminar a frase James o acertou com um chute que o deixou desacordado.
No mesmo instante Abdias sacou duas espadas curtas que Larry achou parecidas com as que os romanos usam em filmes.
 – Porque você o atacou? – perguntou Abdias.
Larry o olhou bem, era um homem muito grande e provavelmente também um padre, usava um terno impecável como o do colega, e a seu exemplo tinha os cabelos pretos penteados par atrás, os olhos eram tão pretos que não se podia ver as pupilas. E um olhar feroz de caçador.
– Porque tive vontade, porque posso, tanto faz, – respondeu James – o que você pretende fazer?
Abdias não respondeu.
– Você foi bem treinado não foi? – perguntou James ­– Posso ver em seus olhos que nunca perdeu – Abdias deixou escapar um sorriso leve ­– é estou certo – continuou James – e deve estar chateado por precisarem de mim não é? Deve estar louco para enfrentar o monstro, e mais ainda para me enfrentar, você deve ter crescido a minha sombra, sempre sabendo que eu fui e ainda sou o mais forte que a ordem treinou, sei como é querer o desafio sei como é querer ser o mais forte, no entanto enquanto eu estiver vivo você estará sempre a minha sombra.
– Você é um traidor. Traiu a ordem traiu a fé. Você não merece os símbolos tatuados em seu corpo, não merece estar vivo! – disse Abdias apertando as espadas.
– Você não terá outra chance de me enfrentar, eu já derrubei o outro, tenho a impressão que você não deve ser muito mais forte. – provocou James.
– Eu sei o que você esta fazendo, – retrucou Abdias sorrindo e aproximando-se – você quer que eu ataque primeiro, quer conseguir uma vantagem, mas ambos sabemos que o primeiro ataque se bem sucedido da à vantagem pra quem ataca.
– Pelo visto você esta com medo de atacar ­– James continuou a provocar.
– Porque teria medo de um verme traidor como você? – Abdias retrucou novamente. Aproximou-se mais um pouco, Larry percebeu isso, mas James parecia alheio a esse fato, parecia arrogante de mais, parecia certo da vitória. E quando Abdias terminou de falar ele riu alto, e ao rir levantou a cabeça deixando por um momento o adversário sair do seu campo de visão, Larry não entedia achava que James era um lutador melhor do que isso.
Abdias não perdeu tempo e usou isso para atacar, e apesar do tamanho era extremamente rápido mais rápido do que Larry podia acompanhar, no entanto de alguma forma James conseguiu se esquivar mas não sem levar um corte no peito, não era profundo mas o sangue começou a escorrer e encharcar a sua roupa. Abdias não parou o ataque e continuou avançando aproveitando a vantagem, James era igualmente veloz, mas começara em desvantagem, e a espada medieval parecia grande e desajeitada em sua mão e tudo que podia fazer era recuar e defender-se, a luta estendeu por quase um minuto, no entanto parecia muito mais longa por causa da incansável troca de golpes.
– Se aquele que você chama de James continuar recuando vai acabar entrando no terreno baldio. – Alertou Robert, que agora assistia a luta com Larry.
No entanto quando James estava prestes a entrar no terreno, sua expressão mudou, antes parecia surpreso e assustado, agora estava sorrindo e a espada que antes parecia desajeitado em sua ficara ágil e leve, e em poucos golpes era Abdias que se defendia e começava a recuar.  Antes de se afastarem novamente do terreno James diminuiu o espaço entre ele e invadiu a guarda do inimigo, soltou à espada e com um golpe que Larry achou parecido com que judocas usam, ele arremessou Abdias para dentro do terreno, esse por sua vez levantou-se muito rápido e aproveitando que o inimigo estava desarmado conseguiu encostar uma espada no pescoço de James enquanto a outra pairava em posição de ataque.
– Foi um bom golpe – disse Abdias – mas custou perder sua espada o que torna esse golpe um fracasso, pois não permitirei que você a recupere.
– Na verdade acho que você tem mais com que se preocupar no momento. – disse James, e no mesmo instante o monstro soltou o rosnado assustador, e só então Abdias se deu conta que estava dentro do terreno enquanto James estava ainda na calçada. Abdias olhou brevemente para trás em direção a coisa, tempo suficiente para James se afastar e recuperar a própria espada.
– Você bolou isso. – esbravejou Abdias – desde o começo queria me usar como isca.
– Sim, e agora você tem a chance de mostrar seu valor contra o monstro.
Abdias se virou e ficou em posição, o monstro era rápido e vinha em sua direção.  No entanto ele não ficou passivo esperando o ataque, lançou-se em direção ao inimigo. Os olhos vasculhando procurando um ponto fraco procurando onde atacar e tentando prever que tipo de ataque poderia sofrer.
Quando estava bem próximo o monstro lançou um ataque com uma espécie de tentáculo, ele esquivou-se e atacou o flanco do inimigo, que soltou um urro impossível de definir se era de dor ou de fúria, outro tentáculo que parecia escondido acertou Abdias, arremessando-o ao chão, que rolou e parou em pé e novamente atacou, dessa vez pelo outro lado, os cortes que produziu foram bem mais profundos, mais uma vez a criatura urrou, e atacou. No entanto dessa vez encontrou o oponente preparado e acertou apenas o ar. Abdias produziu mais dois cortes antes de se afastar, mas ao fazer isso percebeu que os cortes anteriores estavam se fechando.
Pela primeira vez Abdias pensou em fugir, mas o monstro urrava mesmo sem ser atacado e projetou-se ainda mais rápido para cima dele, o golpe foi ainda mais poderoso, e por alguns instantes Abdias não sentiu o chão, quase perdeu a consciência ao se chocar contra o muro, uma de suas espadas tinha se perdido e ele nem lembrava como, segurou a que lhe restava nas mãos com força, morreria lutando, a muito lhe tinham preparado para a morte, sempre sentiu orgulho em ser sincero quando afirmava não temer a morte, no entanto, agora que ela estava tão próxima, sentia-se estranho, queria ter vencido o traidor, queria pelo menos tê-lo ferido, mas não conseguiu, esse parecia estar em outro nível, no começo da luta, achou realmente que podia vencer que todas as lendas que falavam sobre ele eram realmente só lendas, mas então descobriu que ele esteve só brincando.
Quando percebeu o tentáculo vindo em sua direção tudo que pode fazer foi levantar a espada, mas isso de pouco adiantou, mais uma vez foi arremessado longe, dessa vez para fora do terreno caiu perto de James, que sem perder tempo o pegou colocou nos ombros com uma facilidade inacreditável “o quão forte este homem é?” indagou-se Abdias, e como se não carregasse nada James começou a correr, o monstro saiu no encalço.
– Olhe o monstro parece bem mais rápido do que quando me caçou! – Disse Larry
– Sim e esta mesmo. –constatou Robert.
E quando tinham se afastado uns cinquenta metros do terreno, James parou e colocou Abdias no chão, esperou a criatura chegar mais perto, e então em uma velocidade inumana pegou Abdias pelo braço e o jogou em direção ao monstro.
– O que ele esta fazendo? – perguntou Robert.
Mas antes que pudesse obter resposta o monstro agarrou Abdias pelas pernas e braços, e ele pode sentir seus ossos quebrarem sob a pressão que os tentáculos faziam, mas não berrou, olhava o monstro decidido a não morrer em desonra, não gritaria e não imploraria nada, nem misericórdia nem ajuda, mas quando viu a monstruosa boca se abrindo sentiu sua determinação minar, sentiu medo, fechou os olhos e esperou.
Mas o que se seguiu foi um urro, não seu do monstro e quando abriu os olhos viu chamas arderem sob seu algoz e mais uma vez foi arremessado, mas dessa vez para o alto, Abdias sentia com se estivesse voando, percebeu que talvez já estivesse começando a delirar e esperou o encontro com o chão, novamente fechou os olhos e esperou a dor mas não doeu. Quando abriu os olhos estava de pé de frente para seu corpo. “Então acabei morrendo” pensou. Olhou em volta o Monstro rolava no chão como se tenta-se apagar as chamas, viu James pegar uma bola de vidro de cor alaranjada do bolso e se aproximar cuidadosamente do monstro, este rolava e urrava tentando apagar as chamas mas sem sucesso.
– Queima ele – Abdias escutou um grito atrás de si e ao olhar viu dois homens semitransparentes, um com os braços levantados visivelmente feliz por ver a criatura queimar o outro só olhava. “Provavelmente homens mortos polo monstro assim como eu” pensou.
James esperou até que o monstro abrisse a boca e quando isso aconteceu  atirou a bola para dentro dele, por alguns segundos silencio, até que explodiu em milhares de pedaços flamejantes, incendiando o que quer que encostassem. James juntou as mão com os dedos entrelaçados, e entoou um cântico em uma língua que nem mesmo Abdias conhecia e o fogo foi se extinguindo aos poucos.
– Olhe – disse Larry, apontando para o lugar onde o monstro explodiu. Ali estava uma garota nua, aparentemente um pouco queimada, mas viva.
– Ela estava dentro do monstro? – Perguntou Robert estupefato.
– Não – disse Abdias chegando perto dos dois – ela era o monstro.
– Como assim? – perguntou Larry.
– Essa menina tem por volta de 17 anos, foi estuprada aqui neste terreno e deixada a beira da morte. No entanto ela não era alguém comum, possuía um poder espiritual enorme, e provavelmente um demônio se aproveitou de seu momento de agonia e fez um pacto com ela, prometendo vida e vingança, ela sem dúvida aceitou e transformou-se naquilo que vocês viram, naquilo que nos matou.
– Mas o que o demônio ganharia com isso? – perguntou Robert.
– A alma dela, e das pessoas que ela matasse.
– Mas estamos aqui – interpelou Larry – nossas almas ainda estão nesse mundo.
– Sim, isso é verdade, também não entendo muito bem – disse Abdias –não tenho todas as respostas.
– Olhem – disse Larry apontando para James, que desembainhava a espada de ouro e chegava mais perto da menina.
– Me ajude – pediu ela quando ele se ajoelhou ao seu lado – matei pessoas, eu lembro de tudo, estava com muito ódio muita raiva e os devorei, meu Deus eu os devorei – disse ela irrompendo em lagrimas – e pior é que estava gostando, mas eu não queria isso, eu juro que não. – ela olhou em volta como se lembrasse de algo – ela me prometeu vingança prometeu vida, disse que me sentiria bem, mas eu não queria isso... – e dessa vez o choro a impediu de continuar falando.
– Eu sei, doce criança – disse James em um tom conciliador – eu sei, e prometo que o sofrimento vai passar – disse abraçando-a. Quando o choro diminuiu ele a olhou nos olhos, e com o sangue que escorria de seu peito desenhou nela palavras na testa e na barriga da menina, enquanto entoava outro cântico na mesmo língua de antes.
– Que linga é essa? – perguntou Larry
­­– Aramaico – respondeu Abdias – mas não o conhecido atualmente, é um dialeto perdido mesmo antes do nascimento de Cristo, poucas pessoas no mundo conhecem, e menos ainda podem falar, pois consome energia de quem o fala.
James a olhou nos olhos, já não chorava parecia hipnotizada ele abriu a boca ela também e uma espécie de fumaça azul começou a passar da boca dela para a dele.
– Ele esta consumindo os pecados dela, esta assumindo o pacto e tudo mais – disse Abdias estupefato.
James foi se aproximando e a beijou, ela fechou os olhos, mas ele demorou a fechar os dele, e quando o fez ela os abriu, pois nesse momento a espada de ouro transpassou seu jovem coração. Morreu sem se debater com os lábios ainda encostados nos dele.
– Estou morta? – disse uma vós atrás dos três espectadores semitransparentes.  – ele me matou enquanto me beijava?
Ela ainda estava nua, mas sem os machucados, tinha os cabelos escuros e volumosos, a pele parecia mármore branco, os olhos escuros tão negros que não se via a menina dos olhos. E mesmo assim semitransparente era muito sensual. – como é linda ­– pensou Larry, e ficou espantado com a atração que sentiu, achou que não teria mais isso agora que estava morto. E perguntou-se se ainda podia ter uma ereção.
– Também não entendo porque a matou – disse Abdias – ao menos ele consumiu seu pecados e...
– Isso mesmo, e assim sendo você poderá vir comigo – disse uma mulher que simplesmente apareceu entre eles, tinha a pela negra, e os cabelos cacheados amarrados em rabo de cavalo. Os olhos eram azuis e cintilantes pareciam brilhar assim como sua pele. Estendeu a mão para a menina e começaram a andar de mãos dadas, nem bem deram três passos e não estavam mais lá.
– Era um anjo? – Perguntou Robert.
– Provavelmente – respondeu Abdias – mas nunca tinha visto um então não posso afirmar.
­– Talvez fosse o demônio reclamando a alma dela – indagou Larry
Mas antes que alguém pudesse responder qualquer coisa um risada muito alta chamou a atenção deles.
– Bom, demônio posso dizer que não era. – disse uma mulher saindo da sombras, estava muito bem vestida em uma roupa social poderia até se dizer que era empresária, tinha os cabelos loiros, olhos verdes e pele muito branca, mas diferente da outra mulher tudo parecia opaco sem vida. Atrás dela aparecerem sete homens todos de cabeça baixa, vinham enfileirados como se estivessem acorrentados. No entanto não se via corrente ou corda alguma.
– Ei, ali estão os caras que vi o monstro matar. – disse Robert.
– Você viu ele matar todos eles? – Perguntou Abdias.
– Não, mas não acho que os outros tenham tido mortes diferentes.
– Bem perspicaz – disse a mulher em tom de zombaria e estendeu a mão para Robert. Este juntou as próprias mão como se estivesse algemado e entrou na fila também de cabeça baixa. O mesmo se seguiu com Abdias. E quando ela estendeu a mão para Larry ele perguntou:
– Eu estou indo para o inferno? – ela não respondeu só riu a mesma gargalhada alta de antes.
– Queria mesmo era a alma da garota, mas até que não foi de todo perdido – disse a mulher olhando para os homens em fila.
Larry em ultimo na fila percebeu que não podia falar nem levantar a cabeça, mas seus pensamentos ainda eram todos seus. Percebeu que seria sempre assim, ele não sabia o que o esperava, mas se o que aprendeu sobre religião estava certo, ira sofrer muito e não haveria sentido nisso se ele não pudesse entender o que estava sentindo, estaria sempre se culpando e culpando outros por estar ali, sempre sofrendo e sabendo que não haveria escapatória, que seria uma eternidade de sofrimento. Não pode deixar de sentir raiva pela injustiça, por ter sido condenado por pecados de outros.  E assim, em silêncio seguiu na fila preso em seu pensamentos.
O padre que esteve desacordado desde o chute de James, recobrou a consciência, olhou em volta, já estava amanhecendo e tudo o que viu foram dois corpos o da menina e de seu companheiro. Levantou-se, foi até Abdias e conferiu seus sinais vitais, depois os da menina, tirou um celular do bolso e ligou.
– Problema resolvido, mas temos uma baixa, Abdias já não se encontra entre nós.
­– E Piatã? – perguntou a voz no outro lado da linha.
– Não esta mais aqui, deve ter fugido, agora usa o nome James.
– Tudo bem nós o encontraremos novamente, uma equipe de limpeza já esta a caminho.
O padre desligou o telefone sentou no meio fio e esperou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário