segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Porque imortais não vivem para sempre!

 

Escurecia e a fumaça que saia de sua boca denunciava o frio, não estava totalmente escuro, mas as primeiras estrelas já despontavam no céu. Estava mais do que na hora de encontrar abrigo, no entanto não encontrava nem sinal do vilarejo que o mapa em sua mão dizia estar por perto, espreitou o olhar e continuou andando.
A estrada era tranquila apesar do mato fechado que beirava os dois lados, e das muitas curvas que impediam de se ver muito longe. Mas ao olhar acima do topo das árvores pode perceber um pequeno filete de fumaça que podia ser da fogueira de um acampamento, ou ainda uma casa. O que poderia indicar que o vilarejo não estaria tão longe, por via das dúvidas decidiu manter a cautela.
Algumas curvas depois e mais alguns minutos de caminhada encontrou o vilarejo. A fumaça provavelmente vinha de uma das casas, isso o tranquilizou, pois um acampamento naquela região poderia ser problemático. De longe o lugar parecia pouco habitado. Não era tão pequeno como imaginava, mas estava bem escondido no meio da mata e quanto mais se aproximava mais parecia deserto. A grande maioria das casas estavam fechadas, porém algumas exibiam janelas ou portas abertas. E quando se viu entre elas um calafrio percorreu sua espinha, arrepiando os pelos de seu braço, “frio” disse em voz baixa tentando convencer a si próprio. No entanto, o que realmente incomodava era a sensação de estar sendo observado. Apesar da pouca idade ele tinha experiência, na verdade mais do que gostaria. Sabia que não era uma simples impressão, cauteloso continuou andando em direção a fumaça, ela parecia sair de uma casa no final do vilarejo.
O povo que ali morava ou tinha morado, parecia ser caprichoso, as casas pareciam em ótimo estado todas de madeira perfeitamente alinhadas muitas de dois andares, mas nem uma mostrava sinais de arrombamento, não havia sinais de luta. Já tinha passado da hora do crepúsculo, mas uma lua cheia iluminava muito bem as ruas largas, e ele melhor do que ninguém saberia identificar sinais da batalha, mais nada, ele não percebia nada que pudesse explicar um vilarejo vazio. Outra coisa o incomodava, era o silêncio, isso ele percebera há algum tempo enquanto se aproximava na estrada, o barulho de animais noturnos e também de uma quantidade inimagináveis de insetos era notável. Mas na medida que as casas ficavam mais visíveis ele percebia que os ruídos diminuíam como se estivessem com medo de acordar alguém, ou algo. E quanto mais se encaminhava para o centro do vilarejo mais sufocante era o silêncio, ele tinha um talento para ser sorrateiro e silencioso, isso além de ter sido muito bem treinado, muitas vezes fora chamado de sombra ou fantasma por não fazer barulho algum quando se movimentava, mas ali o silêncio reinava, e o ruído de seus passos o deixava desconfortável.

Em geral não era um homem que sentia medo, afinal o que poderiam lhe tirar? Sua vida? Há muito ele não sentia medo de perdê-la, talvez nunca tenha sentido, mas aprendera também que existem coisas piores que a morte. E ali o medo instalava-se lentamente em sua cabeça, um senso de auto preservação tomou seus sentidos, apurou os ouvidos e os olhos mas continuava sem perceber nada, levou a mão à cintura e encostou no cabo de sua espada isso ajudava a tranquilizá-lo. Ele sabia que era melhor pecar por excesso de segurança do que pela falta.
Apressou o passo em direção a única casa que parecia habitada, mas não correu, o que quer que o estivesse observando não veria nele sinais de medo. Há muito aprendera que o medo pode ser mais afiado que uma adaga, sabia também que a demonstração de medo incentivaria um ataque, e ele não estava seguro no meio da rua, sentia-se um alvo fácil. Não tardou muito até que a casa que procurava entrasse em seu campo de visão, mas essa era diferente das demais, era redonda, tinha o telhado aparentemente de palha e as paredes de pau-a-pique, uma pequena chaminé projetava-se da parte de trás, e agora ele percebia, a fumaça que saia de lá era muito branca aponto de ficar muito visível à noite.
E só então percebeu algo muito errado, as casas do vilarejo apesar de serem de madeira representavam um estilo europeu, mas ele não estava na Europa estava em terras recém descobertas pelos portugueses em um lugar que chamavam de Brasil. Estava muito para o interior, não deveria haver uma comunidade européia ali, pelo menos não a ponto de construírem casas como aquelas. Tudo o que ele tinha visto até agora eram casas como aquela que via em sua frente de pau-a-pique, vira também casas melhores no estilo dos portugueses algumas de alvenaria, mas essas só em cidades maiores e portuárias, aquelas ali lembravam casas que tinha visto na França.
Ali era por demais estranho existir um vilarejo como aquele, na verdade até mesmo uma vila qualquer seria estranho pela dificuldade de acesso. Ele mesmo duvidara quando o mandaram para lá, questionou a autenticidade do mapa, mas seu superiores foram categóricos. De qualquer forma não o mandariam em vão, eram sempre muito cautelosos. Agora que pensava no assunto até mesmo a estrada que começara como uma pequena trilha, tinha se tornado uma estrada larga sem ligação com outras estradas. Amaldiçoava-se por não ter notado detalhes tão óbvios antes, como ele, logo “ele” fora deixar passar tudo isso. Agora sentia tudo melhor, ouvia melhor e via melhor, podia ouvir barulho dentro da casa, sentia uma brisa em seu rosto, a pequena sensação que tinha de estar sendo observado não era mais uma simples sensação, ela o oprimia fisicamente agora. Pela segunda vez na noite ele levou a mão ao cabo da espada, mas não a sacou.
Não tinha dúvidas, havia magia agindo ali. Magia é rara e raros também são aqueles que a conseguem manipular de maneira a causar danos sérios às outras pessoas, em geral ela machuca mais o usuário do que os inimigos. Por muitas vezes tentou aprender essa arte, porém não tinha talento para tanto, enfim conformou-se em aprender a reconhecê-la. As inúmeras batalhas que travara o ensinaram a defender-se um pouco, não é fácil lutar contra feiticeiros, mas ele tinha experiência. Não tinha sido avisado que enfrentaria magia, e essa era forte ele podia sentir, no entanto sabia que deveria estar sempre pronto para enfrentar qualquer tipo de situação.
Acreditava que encontraria uma pequena vila com poucas pessoas, esperava agricultores e alguns artesãos, possivelmente um bar onde encontraria informações e até quem sabe o que procurava. A caminhada tinha sido longa e cansativa, o clima era quente e úmido demais, pretendia descansar essa noite e começar a trabalhar só no dia posterior. Essa já não era uma opção, “na pior das hipóteses encontrarei descanso eterno” pensou. No entanto isso não era verdade, ele sabia que essa não era a pior das hipóteses, mas estava disposto a evitar pensar nas piores.
Sentia-se preso em uma armadilha, mas não podia recuar agora, era tarde para isso, até então tinha cometido algumas falhas como poucas vezes em sua vida e não pretendia cometer outras. Observou melhor a casa de pau-a-pique, só podia ver uma porta e três janelas, mas sabia que fora do seu campo de visão havia outras saídas. Caminhou mais lentamente, sentindo o ar os cheiros, ciente de que estava sendo observado, percebia movimento dentro da casa, caminhou até chegar bem  perto e quando estava a menos de cinco metros da casa a porta se abriu.
O homem que passou a soleira da porta não passava dos cinqüenta anos, estava de braços cruzados, tinha a pele queimada do sol, os cabelos amarrados eram grisalhos e não passavam dos ombros, era alto, parecia ser musculoso, a postura e o ângulo que parou na porta indicavam que sabia lutar, ele sorria, a noite estava anormalmente clara, a lua iluminava muito bem seu rosto e era possível perceber um sorriso muito branco. Não podia ver os olhos claramente, mas sentia-se oprimido pelo o olhar.
– Aproxime-se – disse ainda sorrindo o homem parado na porta – estava a sua espera.
O homem falava em português, – procuro uma pessoa – respondeu também em português na qual era fluente como em tantas outras. Aproximou-se um passo, não mais. Tentou ver dentro da casa, ver se tinha mais alguém, calculando um possível embate, não queira ser pego de surpresa, mas a casa estava muito escura.
– Eu sei – disse o homem – creio que esse seja eu!
– Você? Como poderia saber? Se mesmo eu não tenho certeza de quem procuro?
– Porque sou a única pessoa por aqui. – já não sorria mais – E porque na verdade você não procura um homem e sim o objeto que este possui. – o olhar não era mais opressor e sim ameaçador. – Eu sei o que você é e para quem trabalha.
– Você sabe? – isso era improvável mas não impossível.
– Você é um assassino, mas veio até aqui como um ladrão, no entanto como a natureza de um escorpião é picar a sua é matar e me mataria quando consegui-se o que procura.
Isso era verdade, não tinha a intenção de deixá-lo vivo, não queria ninguém o caçando na volta, mas também não era só isso estava acostumado a matar, até gostava, mesmo dizendo que não sentia prazer. A verdade é que essa era a única coisa que fazia realmente bem e isso lhe proporcionava mais prazer do que achava correto.
Descruzando os braços o homem disse – Não pretendo morrer essa noite, nem deixar que leve o que veio procurar – estava novamente sorrindo, agora o sorriso era tão ameaçador quanto o olhar.
Pela terceira vez na noite levou a mão ao cabo da espada sem sacar – como soube que eu estava a caminho? – sabia a resposta “magia”, mas estava ganhando tempo, o estudando, procurando uma brecha para o ataque, aproximou-se mais um passo. Agora estava perto o suficiente para ver os olhos, os dele eram azuis, mas não eram como os que já tinha visto. Esses eram antigos, não velhos só antigos cheios de vida, uma vida anormalmente longa.
– Através dos anos muitos vieram atrás de mim, do que possuo, nenhum retornou, fica cada vez mais fácil prever a chegada de vocês ­– sorria novamente exibindo os dentes estranhamente brancos.
Havia ameaça nas palavras, mas também uma chance de recuar, se fosse essa a intenção esse era o momento e provavelmente a ultima chance, estava sendo subestimado. Percebia que não seria um a luta fácil, aqueles olhos não perdiam nem um movimento, não se assustavam, já tivera de recuar outras vezes, no entanto sempre completava as missões, dessa vez percebia que não teria outra chance.
– Se você é o único aqui, onde estão as outras pessoas da vila? – ainda procurava o momento do ataque, continuava segurando o cabo da espada, agora com mais firmeza. O que não passou despercebido ao olhar do feiticeiro.
– Não estão aqui – limitou-se a falar.
– Se sabia da minha chegada porque esperou? – aproximou-se mais meio passo.
– Você não usa magia, e não vejo amuletos, no entanto sua mente esta protegida, e sua presença ficou escondida até que já estivesse bem perto. Como fez?
– Realmente não sou um feiticeiro, mas conheci muitos, os ajudei a descobrir que não eram imortais. Outros não eram inimigos e ofereceram ajuda, tenho muitos símbolos tatuados no corpo.
– Entendo... – disse sem sorrir tomando uma postura mais ameaçadora – Isso foi inteligente, mas não me tomes pelos feiticeiros que conheceu, eu já vivi mais do que todos eles juntos e já vi muitos outros como você, todos de espadas na mão achando-se fortes, experientes, gabando-se de terem matado muitos. Não passavam de moleques brincando, tive de lhes ensinar sobre medo, terror e coisas piores que a morte.
– Então terá pouco a me ensinar, não finjo ser destemido, e tenho aprendido muito sobre morte e coisas piores que ela. – o primeiro ataque se bem sucedido seria vantagem, um mal sucedido, significava a derrota, ele era paciente esperava o momento.
– Você é arrogante, tencionava lhe dar uma chance de ir embora, mas não o farei mais. Hoje ouvirei você gritar e pedir pela morte.
– Penso que você esta com medo, que não fugiu porque não teve tempo, e agora esta tentando me assustar porque não sabe o que fazer. – isso não era verdade, não totalmente. O homem começou rir, uma gargalhada profunda cheia de desdém, o som que saiu não era humano. O feiticeiro era o tipo de pessoa que levanta a cabeça quando ri e por um momento não estava mais sobre aquele olhar, esse era o momento, a brecha.
A espada em sua mão não passava de um borrão, transpôs o pequeno espaço em uma velocidade muito acima dos padrões normais, mas como tinha previsto encontrara um oponente valioso e não conseguiu infligir mais do que um corte no peito antes do feiticeiro afastar-se para dentro da casa tão rápido quanto ele. No entanto o que realmente o surpreendeu, foi sentir o sangue escorrer no próprio peito...
Encontrava-se agora na soleira da porta, enquanto o feiticeiro escondia-se na escuridão, sabia que entrar seria lutar em território inimigo, no entanto já estava em território inimigo desde que entrara na vila e o corte em seu peito mostrava que não fora ele a desferir o primeiro golpe. Tinha sido enfeitiçado em algum momento, mais uma vez amaldiçoou-se por não ter percebido a iniciativa do inimigo.
Avaliou o ferimento, não era muito profundo e o sangramento não trazia riscos, calculou que esse era possivelmente o mesmo corte que tinha infligido ao feiticeiro, e provavelmente qualquer dano causado ao inimigo também o atingiria. Esse era um feitiço extremamente forte, e provavelmente muito complicado, nunca tinha visto algo do tipo. O feiticeiro era poderoso, mais do que esperava.
Deu o primeiro passo para dentro da casa, a única luz que havia era a projetada pela lua, que entrava pela porta e por algumas frestas das janelas. No interior da casa não localizava o feiticeiro, seus olhos já estavam acostumados com a escuridão, mas pouco conseguia discernir, via o vulto de alguns moveis e mal conseguia movimentar-se sem esbarrar nas coisas. Espreitou o olhar e percebeu o movimento do feiticeiro, este pronunciou algumas palavras que ele não conseguiu entender e uma cadeira irrompeu em chamas, mas não eram chamas comuns, pareciam ter vida e aos pouco foram tomando uma forma humanóide, que começou a caminhar em sua direção devagar e determinada, tentou inutilmente cortá-la com sua espada, mas a forma era feita de chamas.
Afastava-se em direção a porta, enquanto as chamas caminhavam em sua direção, aquela era uma mágica extremamente poderosa, o feiticeiro cada vez mais o surpreendia, até onde sabia feitiços cobravam seu preço e quanto mais forte, maior o preço a ser pago, o feiticeiro deveria estar muito debilitado, primeiramente pelo feitiço que revertia os golpes e agora por esse de controle das chamas.
Não conseguia infligir danos a forma feita de chamas ficou claro que era inútil lutar diretamente contra ela, o mais certo seria atacar quem a controlava desfazendo assim o feitiço, no entanto ainda não podia localizar o inimigo, estava escuro demais. Foi então que percebeu, alguma coisa estava errada, havia em sua frente uma massa considerável de chamas, o que seria suficiente, para iluminar toda a casa por dentro, no entanto a luz que emanava não se projetava por mais de alguns centímetros, tocou em sua espada cuja qual havia golpeado as chamas e esta permanecia fria, “uma ilusão” pensou, “é isso!” No mesmo momento voltou todos os seus sentidos para tentar perceber os movimentos do feiticeiro, e foi suficientemente rápido para parar um golpe de espada de seu inimigo. Acostumado a batalhas contra atacou, não precisava de muita claridade para isso, seus sentidos eram bastante apurados para que pudesse lutar com tão pouca claridade, o feiticeiro foi pego de surpresa, sentiu o sangue escorrer por um corte em seu braço, o mesmo que infligira a seu inimigo.
A ilusão continuou caminhando em sua direção e passou por ele sem que sentisse absolutamente nada, o feiticeiro novamente afastou-se. Mas agora não o perdia totalmente, conseguia discernir onde ele estava.
– O que foi não consegue lutar no escuro? – desafiou.
– Posso lutar sim – respondeu o feiticeiro – mas devo lhe parabenizar por perceber a ilusão, no entanto, você esta com problemas, já deve ter percebido que não pode me machucar sem ferir a si próprio, enquanto eu posso feri-lo livremente. Diga-me como pretende me matar sem morrer?
Era verdade estava com problemas, esse impasse estava difícil de resolver, o mais óbvio seria subjugá-lo sem matar, mas isso não seria tão simples, pois seu oponente já havia se mostrado um bom lutador, e poderia ter ainda recursos que desconhecia, não dispunha de tempo para subjugar seu inimigo, sem causar-lhe fortes ferimentos.
– Não posso lhe ferir livremente, mas ainda sim posso lhe ferir, acho que vou apostar e descobrir quem agüenta mais tempo. – o feiticeiro gargalhou alto a mesma risada monstruosa de antes, mas não estava brincado, realmente acredita que poderia agüentar muito mais ferimentos, afinal era treinado para isso, fora também experimentado em muitas batalhas e sabia que sua resistência era muito acima dos padrões normais. No entanto o problema era que não enfrentava um inimigo fraco e não podia deixar ser atingido, pois se assim fosse estaria sempre em desvantagem.
Atacou, novamente o feiticeiro equiparou-se a sua velocidade e como este havia dito podia lutar tão bem quanto ele com tão pouca claridade, trocaram alguns golpes antes de sentir o sangue escorrer em sua perna, dessa vez sabia que não tinha infligido dano algum ao inimigo, então afastou-se.
– O que foi? Achava que só você poderia me atingir? – Perguntou o feiticeiro.
Reavaliou a situação, e percebeu que sua aposta inicial talvez não estivesse certa. Ponderou a situação e pensou: “esse é sem dúvida o melhor espadachim que já enfrentei, e ainda é um feiticeiro, se lhe der espaço, ele ira me matar, provavelmente ainda tem recursos que não usou e mesmo que não tenha equipara-se a mim de espada na mão, só me resta uma saída.”
Atacou novamente dessa vez mais determinado, trocaram alguns golpes e se afastaram novamente, dessa vez conseguira cortá-lo, cortes que também sangraram em seu corpo, no entanto o inimigo também havia o ferido, em condições normais provavelmente venceria, mas agora acreditava que não, pelo menos não sem perecer junto. Já encontrara falhas na defesa do oponente e estava determinado.
– Lutei com muitos oponentes, mas você é primeiro com quem luto que sabe manejar tão bem uma Katana, principalmente tão longe do Japão, onde aprendeu? – Mesmo ele, com sua vontade de ferro sentia-se receoso em concluir o que estava prestes a fazer.
– Já vivi muito tempo e morei também em muitos lugares, tive a oportuni... – atacou antes do feiticeiro concluir, já tinha percebido que este perdia atenção no oponente quando falava, aproveitou a vantagem na troca de golpes, fez o inimigo dar um passo para trás depois outro para o lado e como o calculado ele esbarrou em uma cadeira abrindo momentaneamente a guarda, nesse momento as dúvidas desapareceram, e ele fez o que deveria, decapitou o inimigo, pode sentir sua cabeça descolando do corpo, mas não havia dor, “ então essa é a sensação” teve tempo de pensar antes de fechar os olhos e tudo ficou realmente escuro.
Abriu os olhos lentamente, não sabia o que esperar, mas sua mão segurava firmemente o cabo da espada e isso o tranqüilizava. – Aproxime-se – ouviu alguém falar e quando sua visão recuperou o foco percebeu um homem parado na soleira da porta que não passava dos cinqüenta anos, estava de braços cruzados, mas seu rosto denunciava medo. Muita coisa passou em sua mente, acontecimentos que ainda não haviam acontecido, “uma premonição” pensou, mas nunca fora propenso a esse tipo de talento, além disso, o medo na fisionomia do homem denunciava o que havia acontecido, fora tudo uma ilusão, uma ilusão muito poderosa de fato, mas ainda assim uma ilusão, provavelmente ativada quando ouvira a voz do homem. Já tinha enfrentado mestres ilusionistas antes, mas nem um tão poderoso, podia jurar que aquela era uma lembrança real e não uma ilusão podia até sentir dor onde supostamente havia sido cortado, sentia ainda o abraço da morte.
Não tinha certeza de como tinha desfeito o feitiço, provavelmente o feiticeiro não esperava que ele tentasse matá-lo mesmo sabendo que essa também seria sua morte. Pelo modo como o homem esfregava o pescoço calculou que para o feitiço parecer tão real o usuário também sentia os efeitos, assim, ambos sentiram como era morrer.
Estava preparado para morrer, sabia que este era um quesito essencial para tornar-se um espadachim temido, sabia também que isso geralmente se revertia em vantagem. Acreditava que o homem em sua frente não tinha o mesmo preparo, no entanto, não era de ficar se perguntado “os porquês” era um homem de ação, aproveitou o momento de distração do inimigo e atacou novamente, estava longe, no entanto o inimigo demonstrou uma velocidade pífia, facilmente transpôs o espaço entre eles e dessa vez o corte sangrou somente no inimigo que acabou caindo.
O ferimento não era mortal, mas o inimigo não mostrava sinais de reação, apenas o olhava com medo e espanto, o feiticeiro abriu a boca para falar algo, mas se ilusão era ativada pela voz, não daria outra oportunidade ao inimigo e dessa vez quando o decapitou seu pescoço continuou intacto. 
A cabeça do feiticeiro rolou sem que ele pudesse falar o que pretendia, seus olhos continuavam abertos, e pareciam fita-lo, o corpo exalou um cheiro podre e rapidamente começou a derreter, o liquido não tardou a ser consumido pela terra deixando apenas uma mancha úmida no chão. Mas a cabeça continuava inteira e aqueles olhos antigos agora já sem vida, ainda o olhavam, pareciam cheios de ódio e rancor. Chutou a cabeça para longe da casa e ateou fogo na mesma, era melhor pecar por excesso de segurança do que pela falta.
Olhou para a lua calculando quanto tempo até o amanhecer, esperaria a luz do sol, só então entraria na casa e procuraria o que veio buscar.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma conversa de terça a noite!



Caroline diz:
Até onde o medo de enlouquecer faz com que fujamos da nossa consciência e nos afastemos de nossa essência?

Cauê diz:
Isso depende de até onde sua consciência está mesclada com a loucura!! Depende do que é loucura, você sabe dizer o que é loucura?

Caroline diz:
Loucura é medo de ir mais longe dentro de si mesmo, ao ponto de não ter certeza de que se pode voltar. É isso que sinto quando tenho medo de ficar louca, é isso que me faz ter vontade de ligar a TV ao invés de continuar escutar música.

Cauê diz:
Então tome cuidado ao olhar durante muito tempo para dentro de ti, porque se o que você vê é um abismo, você tende a acreditar nele e começa a achar que ele não tem fundo, e começa a pensar que ele é você e você é ele. Mas a verdade é que você não é um abismo e aquilo que pensa não ter fim é apenas você retornando sempre ao começo sem perceber!

Caroline diz:
Mas quando não...  às vezes penso que minha impotência diante de algumas coisas me deixam louca... e não é mais sobre mim...
Mas me engano... acho que é sempre sobre mim.
É minha mania de fugir...
Acho que mergulhar mais fundo é saber que quando se volta é preciso mudar o que esta atrapalhando, ao ponto de vir à tona na superfície.

Cauê diz:
Eu também fujo as vezes, acho que é o medo, assim como você medo de mim, medo de mergulhar muito fundo e descobrir coisas de que não gosto, acho que aquilo que esta na superfície é só reflexo daquilo que deixamos lá em baixo intocado, um reflexo naqueles espelhos tortos e trincados onde você não reconhece facilmente o que esta sendo refletido mas ainda sim um reflexo. Ai se você consegue mudar isso, o que esta na superfície não vai mais atrapalhar porque ele vai ser só um reflexo daquilo que você mexeu lá embaixo

Caroline diz:
Sim, e ai mora meu maior medo acho que a loucura mora no fato de conhecer e não conseguir transformar. É aceitar o inaceitável... é mergulhar fundo, e se deparar com o que se precisa mudar e acabar ficando imobilizada ao voltar por não saber o que fazer ou como fazer.
Como se fossem vícios de pequenos prazeres momentâneos e grandes consequências.

Cauê diz:
Vou modificar uma frase de Gaiman pra isso: as vezes mergulhar é um erro, mas nunca mergulhar é sempre um erro...
Ai que me pergunto se o que me imobiliza é não saber o que fazer, ou saber e ter medo de mudar...
Às vezes o medo é o problema, ele faz reféns...
E sabe, penso que as consequências têm o tamanho da importância que delegamos a elas. No entanto conheço bem esses vícios de pequenos prazeres, e não subestimo as consequências que eles acarretam...

Caroline diz:
Era isso que estava pensando, uma vez me falaram que talvez eu tivesse medo de mudar por talvez acreditar que essa mudança faria que minha vida fosse perfeita.
Acredito que talvez seja mesmo a importância que dei ao fato de sonhar com a perfeição... um ideal frustrante não?

Cauê diz:
Acho que isso vale pra mim também, sonhar com o inalcançável e viver com medo de não alcançá-lo, mas lá no fundo não querendo alcançar porque na verdade esse não é meu ideal, essa perfeição é o que me disseram pra ser, então jogo ela em níveis tão inalcançáveis que é impossível atingir, assim quando falho posso usar a desculpa pra mim mesmo que era mesmo impossível, então tudo bem... (mesmo sabendo que a pior mentira é aquela que conto pra mim mesmo) quando na verdade não era o que realmente queria, quando na verdade, não existe perfeição...
Concordo, a perfeição é sempre frustrante!!

Caroline diz:
Você fala a verdade quando diz que foi o que disseram pra ser e não o que realmente se sonhou pra si...
Preciso dormir amanha tenho que acordar as 6:30

Cauê diz:
Mana posso colocar essa conversa no blog?

Caroline diz:
Pode
Huahahuahu

Cauê diz:
Relendo achei bem interessante.

Caroline diz:
Boa noite maninhoo
Te amo muitoo

Cauê diz:
Também te amo mana
Bons sonhos!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Hoje

Hoje meus movimentos mecânicos denunciam a minha falta de naturalidade, hoje não sou sutil, hoje não estou bem humorado, hoje não tenho vontade de ajudar ninguém, hoje sou egoísta!
E por que não?
Hoje tenho fome de algo que não posso comer, hoje quero beijar alguém que não esta aqui, hoje quero chocolate, hoje me sinto perdido em meu quarto!
Quem nunca se perdeu no próprio quarto?
Hoje gostaria de ter escrito algo inteligente, hoje foi só mais um hoje, hoje percebi que estou atolado em auto-piedade, hoje estou sendo piegas, hoje tive medo!
Medo de mim e de você, mas como poderia não ter?
Hoje pensei em coisas que não devia, hoje quis estar em outro lugar, hoje fui só eu mesmo, hoje me senti assim sei lá!
Você entende?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reflexo


Tudo que tenho tudo que sou, é um reflexo! Um reflexo de meus pais, de minhas leituras, das musicas que ouço, da fé que não tenho, do medo que sinto, do desespero que me assola quando me perco em meu quarto. Todo esse delírio, toda essa incoerência que represento todo esse declínio ao que não deve ser, faz parte daquilo que sou, e nem sempre o que sou é bom.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um retrato de Desespero

Sandman - Noites Sem Fim ( Desespero )

Vivo me afogando em coisas fúteis...


Vivo me afogando em coisas fúteis, por medo de ser quem sou, e só percebo isso quando me lembro que não sou o que deveria ser. No entanto, ainda espero entender o paradoxo existente entre uma verdade inventada e uma mentira verdadeira!