terça-feira, 1 de agosto de 2017

Porque escrever ajuda!


Tenho medo, por ter perdido o maior amor que eu já senti, me sinto triste por não poder ter mais os melhores abraços que já recebi. Enfim, me percebo amaldiçoado por minha consciência. 
Estou cansado de me sentir assim, e me sinto culpado por isso.
Todos morrem, e há crueldade em continuar vivendo, há crueldade ainda que involuntária, mas ainda sim crueldade. Há crueldade na continuação das coisas comuns. As pessoas não param e não podem parar, elas vivem pelo impulso de viver, como deve ser.
Mas e eu, onde fico nisso tudo. Não quero morrer não me interpretem mal, mas estou cansado.
Cansado de todas as minhas mascaras da futilidade que vem com elas, estou cansado por perceber as máscaras das pessoas mesmo quando elas mesmas não percebem.
Por tanto tempo senti medo de ficar só, de estar só. Temia não aprender a estar sozinho em minha própria presença. Hoje a solidão ainda me assusta, mas também atrai.
Já não sinto mais raiva, só tristeza.
Mais uma vez me vejo em pé, olhando para o abismo em meu peito, e ele parece mais profundo e convidativo. Sei que não devo olhar tanto tempo, sei que ele pode olhar de volta, mas já não consigo evitar.
Não estou livre, mas sou eu que faço minhas correntes.
Queria estar diferente, ou não, não sei.
Na verdade queria estar com alguém, sim isso é verdade.
Sinto medo de fechar olhos, mas não por medo de poder ver o que vejo com olhos fechados, tenho medo não sentir mais vontade de abri-los.

Por um momento escrever pareceu ajudar, mas não pode, de fato nada pode.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Você


Já faz tanto tempo que que não tenho você em meus braços...
É uma sensação estranha, um misto de tristeza e esperança.
Sinceramente não sei qual dos dois é que mais aperta em meu peito.

Estou de pé, olhando dentro de minha própria cabeça, olhando minha mente, repassando lembranças... abraços, beijos e conversas, nesse momento estou sonhando acordado, e tenho plena consciência de que falo sozinho. Talvez tenha enlouquecido, talvez a solidão tenha aberto as portas para o delírio. Ou talvez a própria solidão seja um delírio.

Me agarro a desejos, pecados, sempre me lembro dos cheiros nesse momento, do aroma... A recordação de sua pele é tão vívida que fico feliz por esse delírio, em minha mente o desejo prevalece, desejo de sentir seus seios em minhas mãos, seus mamilos em minha boca, de tocar em seus pés, de beijar suas pernas, sua barriga, desejo sentir seu sabor...

Sei que escrevo de forma vulgar, mas meus pensamentos vulgares que motivam a continuar escrevendo.


Tenho saudades do seu corpo eu admito, mas apesar de todo esse desejo o que eu não daria por um abraço, um simples abraço, e quem sabe um sussurro ao pé do ouvido: “eu te amo!”

terça-feira, 22 de setembro de 2015

megaroC


Medo medo medo
Tenho medo de ficar por querer ir...
Isso porque não me sinto aqui.
Não, aqui não, mas talvez. Talvez não me sinta em você, mas certamente não me sinto em mim...
Medo medo medo.
Tenho medo da solidão que há em mim.
Tenho medo de me sentir só mesmo acompanhado, pois as vezes penso que a solidão habita em minha alma.
Medo medo medo.
Tenho medo de ficar a sós comigo mesmo...
Me sinto surdo a esse silêncio, mesmo sabendo que ele diz muito.
Medo medo medo.
Tenho medo de falar por não saber o que o dizer.
Se aos olhos o silencio pode dizer algo, ao coração... bom ao coração não sei.
Medo medo medo.
Tenho medo, e não sei bem o que isso significa.
Me pergunto se é preciso entender o medo pra saber o que é ter coragem....
Medo medo medo.
Tenho Medo, o medo de perder o que nunca tive.

Talvez seja isso, talvez seja medo de ouvir, talvez de dizer, ou talvez de não ter. Mas o mais provável é que só sinta medo, e do que esse medo tem a me dizer.

domingo, 14 de junho de 2015

Um pouco mais ao sul...


Joana, morava em uma cidade ao sul do Brasil e passava o dia trabalhando em uma fábrica de sapatos, fazendo sempre a mesma parte, sempre da mesma forma. Tanto que seus movimentos tornaram-se mecânicos e ela acabava por ter muito tempo para pensar. Nesses momentos tentava pensar em coisas úteis, coisas que devia lembrar, em planos que devia fazer para otimizar seu dia, para aproveitar melhor seu tempo, em como melhorar no empregou ou encontrar outro melhor, mas sua mente raramente a obedecia e acabava pensando em coisas bobas, como um brinquedo de que gostava quando era pequena, nas histórias que inventava para si, dos casamentos impossíveis que se imaginava tendo. As vezes lembrava da escola mas nunca de lições realmente úteis, mas sim em brigas e namorados que tivera.
Em alguns dias Joana se esforça para pensar em seu lugar no mundo, mas tudo o que conseguia era pensar que morava em uma pequena cidade ao sul do Brasil, ao pensar assim achou engraçado que em outros países muitas pessoas ainda acreditavam que a capital do Brasil era Buenos Aires, mesmo em pleno século XXI, até se lembrar que houve um tempo em que acreditava que a capital dos EUA era New York. Às vezes quando pensa nisso ela lembra que não tem muito conhecimento sobre a capital de muitos países, que na verdade não era “um alguém” muito esclarecida, para poder de alguma forma achar engraçado a falta de conhecimento de quem quer que fosse.
Às vezes pensava na vida que passava lá fora, nas coisas que não estava vivendo, nas pessoas que não estava conhecendo, na diversão que a esperava. Então ela pensava e perdia-se em seus pensamentos, em como seria quando fosse rica, os países que visitaria, as pessoas que ajudaria. Em outros momentos, pensava em si como uma grande estudiosa de alguma coisa, ganhando o Nobel por algo extraordinário que tinha feito, às vezes pensava em si como uma escritora de best sellers em uma cafeteria autografando seu grande sucesso. Mas o que ela mais gostava, era de se imaginar em uma aventura, podia ser uma grande aventura tipo Indiana Jones, ou uma simples que salvava alguém importante e de alguma forma era recompensada, até se achava um pouco mesquinha por se imaginar sendo recompensada, mas se não fosse dessa forma, como poderia sair da vida que levava?
Nas vezes em que imaginava suas aventuras sempre pensava em suas qualidades em como era ágil, esperta, como podia resolver problemas de lógica facilmente, em como seu potencial estava sendo pouco aproveitado, e ficava mesmo irritada com isso, indignava-se com seu destino e tinha vontade mandar todos a merda, principalmente seu chefe, que não passava de um palhaço que só ocupava um cargo de encarregado por ser um grande puxa saco, sem falar que era um tipo mau caráter e meio tarado, que já tinha deixado a mão na perna dela mais de uma vez e até a passou em sua bunda disfarçadamente, em todas as vezes ela deixou por isso, pois precisava do emprego, mas estava cansada, do trabalho e sua vida medíocre.
Nesse dia Joana tomou uma decisão, decidiu que não aguentaria mais, decidiu que iria rir daqueles que não sabiam qual era a Capital do Brasil, decidiu que estava pouco se importando com as baleias ou pandas em extinção, decidiu que não dava mais importância para nada disso, decidiu sair de casa, que faria seu chefe se arrepender de ter mexido com ela.
Foi justamente nesse dia que seu chefe ao cruzar com ela no corredor entre as mesas que era um pouco apertado, aproveitou o momento para se aproximar mais que o necessário e esfregar seu pênis aparentemente ereto nela. Ao passar ela o olhou e ele lhe deu um sorriso maldoso meio de lado, ela sentiu a fúria lhe subir, o sangue ferver, mas sentou-se em seu lugar como sempre fazia, alguns instantes depois ele chegou perto dela novamente e a chamou:
– Joana, quero falar com você em minha sala. – Não respondeu nem se moveu, ficou ali quieta, fingiu que não era com ela, fechou os olhos e tentou pensar em coisas boas.
– Joana venha comigo – repetiu ele, ela continuou imóvel pensando: “se ele me tocar dessa vez não vou suportar”.
– Joana você está surda? – Insistiu seu chefe tocando em seu ombro, e no instante em que ela sentiu o toque, foi como se um sino batesse em sua cabeça, ela olhou para frente e viu uma tesoura, que não devia estar ali, mas estava, e sem responder ela a pegou lentamente, seu chefe continuava a falar alguma coisa, ela já não ouvia, a voz dele já não passava de um zumbido, e quando ela enfiou a tesoura em um dos olhos dele, percebeu que a intensidade do zumbido aumentou, provavelmente ele estava gritando, esse pensamento lhe arrancou um sorriso.
Joana deixou o trabalho calmamente, ninguém tentou impedi-la, algumas colegas a olhavam assustadas mas sem falar nada ou se mexer, outras nem sequer a encaravam, provavelmente porque ela ainda carregava a tesoura ensanguentada. Antes de sair ela lembrou de bater o ponto, e ao fazê-lo sorriu de novo.
Ao chegar à rua ela já não lembrava onde tinha colocado a tesoura, na verdade não importava, pensou que se fosse em um filme ou mesmo em uma cidade grande levantaria a mão e pediria um taxi, mas não em sua cidade, ali os taxis não andavam pela cidade, ficavam em seus pontos esperando e haviam bem poucos deles. “Tanto melhor” pensou ela “vou caminhar”.
O sol estava agradável e ela caminhou por alguns minutos até chegar a uma parada de ônibus, sorriu para as pessoas que ali estavam e elas sorriram de volta, isso a alegrou e decidiu que esperaria e pegaria o primeiro que aparecesse. Não demorou ela estava embarcada indo em direção à praia, feliz pelo destino que o ônibus a levaria.
Ao seu lado estava um rapaz que ela não tinha percebido até que ele puxou assunto:
– Oi – disse sorrindo. Ela sorriu de volta e respondeu:
– Olá.
– Prazer, me chamo Rafael – disse ele estendendo a mão, tinha um sotaque diferente.
– Você não é daqui é? – perguntou ela apertando a mão estendida.
– Realmente não sou, o sotaque denuncia não é? – ele tinha um belo sorriso e uma voz agradável, a conversa fluiu a partir deste ponto, ele explicou que estava viajando e conhecendo praias, falou de sua vida errante e de como se sentia livre, ela sentiu um pouco de inveja no começo, mas depois lembrou que agora também estava livre, ele perguntou se ela estava muito ocupada se não poderia lhe servir de guia, ela aceitou, não tinha nada melhor para fazer e ele a agradava bastante.
– Obrigado – disse ele pegando na mão dela – outra coisa você ainda não disse seu nome?
Ela pensou em recuar a mão mas por algum motivo que não sabia explicar deixou assim e respondeu: – Larissa – se ia começar uma vida nova porque não um nome novo também.
– Isso no seu jeans é sangue? – perguntou ele. Ela olhou umas pequenas manchas vermelhas em sua calça, e ficou enojada por perceber que ainda havia algo de seu chefe grudado nela.
– Talvez – disse Joana, que agora era Larissa, e sorriu. Ele sorriu também, mas dessa vez diferente era um sorriso de lado misterioso. Ele não perguntou mais nada sobre o assunto.
Ela lhe mostrou alguns pontos turísticos, deixando por último o farol que era o que ela mais gostava.
O farol ficava em cima de um morro, chamado Morro dos Conventos, ela explicou que não sabia direito o porquê do nome, já haviam lhe dito que era por causa do Hotel que havia ali em cima e já tinha sido um convento, outros disseram que os marinheiros quando do mar olhavam o paredão de pedra gigante onde estava o farol, o achavam parecido com um convento.
Eles estavam de pé em cima do paredão abaixo havia mata, e dunas mais a frente no horizonte olhavam o mar, era final de tarde e o sol se punha atrás deles.
– Seria mais bonito se o sol estivesse se pondo no mar. – Disse Joana que agora era Larissa em tom de desculpas.
– Isso é verdade, mas também significa que o nascer do sol aqui deve ser lindo – Comentou Rafael com o olhar perdido no Horizonte.
A claridade que vinha de traz deixou seu rosto na sombra ela não soube definir se ele sorria.
Como era fora de temporada praticamente todos os bares e restaurantes estavam fechados, mas eles acabaram encontrando um que servia lanches. Comeram e ele fez questão de pagar, depois foram caminhando em direção a praia, sentaram na areia a lua estava especialmente bonita estava cheia em um tom alaranjado, ele explicou a ela algo em relação a lua e o porquê da cor, mas ela não prestou atenção, não estava interessada em dados, nem como as coisas funcionavam, agora ela era Larissa, e Larissa só se importava com a beleza e não no porquê de ser belo, estava decidida a ser espontânea, bem ela já havia começado bem.
Ele tirou uma garrafa comprida da mochila com um liquido verde quase florescente.
– Absinto – explicou Rafael – mas não tenho copo – e tomou um gole no bico.
Ele ofereceu a garrafa a ela, a bebida era mais forte que ela imaginava, no começo sentiu o doce do sabor de anis, depois sentiu a garganta arder os olhos lacrimejarem mas não reclamou. Ele sorriu, deu outro gole e disse – O primeiro porre de absinto a gente nunca lembra! – e ambos riram.
Antes de abrir os olhos ela sentiu a dor de cabeça, o quarto não estava muito claro, mas a claridade machucou seus olhos quando os abriu, e sua cabeça latejou ainda mais. Tentou clarear a mente descobrir onde estava, e sentiu uma pessoa a seu lado, ele ainda dormia, e meio desajeitado virou e a abraçou, não foi como nos filmes, mas ainda assim ela gostou. Fechou os olhos e pensou “ele não estava totalmente certo, posso não me lembrar de tudo, mas lembro dos melhores momentos”. E realmente lembrava de muitas coisas, como por exemplo quando ele a beijou, em como ela queria isso e como deixou acontecer, lembrava de quando ele a convidou a ir para outro lugar e de aceitar, sabia que só havia aceitado por estar muito bêbada, mas sentia-se bem por isso. Lembrava que tinham caminhado até o hotel que ficava perto do farol, não tinha certeza, mas achava que ele havia subornado o atendente do hotel para não pedir documentos nem fazer perguntas, lembrava-se de terem entrado no quarto e quase tudo que acontecera durante a noite, sentia-se feliz e voltou a fechar os olhos.
Quando acordou ainda sentia dor, mas ele não estava mais ao seu lado levantou e foi ao banheiro, cada passo parecia um terremoto em sua cabeça e quando voltou para o quarto ele a esperava.
– Vamos tomar café, estive lá embaixo e ele estava realmente apetitoso – disse Rafael em um tom alegre, se estava com ressaca não demonstrou, ela decidiu fazer o mesmo, esboçou um sorriso e concordou com a cabeça. Ela colocou as roupas e desceram.
– Tome bastante água – disse ele – ajuda bastante com a dor provocada pela ressaca.
Ela bebeu, e tomou suco mas não pareceu fazer muito resultado, o café estava realmente delicioso muito mais do que o que tomava em casa sozinha, com café solúvel e pão amanhecido com margarina. Mas agora era ela Larissa e como tal não voltaria a tomar cafés sem graça, não teria mais uma vida assim sem sal.
Perto de onde comiam havia uma televisão que passava um jornal que ela sabia que era local mas estava no mudo. Ela sentiu um frio na barriga quando leu as palavras “tentativa de assassinato” em baixo de uma foto sua e uma imagem de seu chefe em uma cama no hospital com bandagens no olho que ela havia perfurado, mas não conseguiu conter o sorriso quando o viu daquela forma e até uma pontinha de orgulho. Ela percebeu que Rafael olhava e quando se virou seus olhos se encontraram, ele não demonstrou muito no começo mas ela podia jurar que era como se ele pudesse sorrir com os olhos, até sua boca acompanhou esse sentimento e os dois sorriram mas não comentaram nada, e ela começou a duvidar se ele tinha visto toda a reportagem se tinha percebido que ela estava sendo procurada.
Após um desjejum sem muitas palavras mas muitos olhares eles levantaram e saíram sem voltar ao quarto pois ele só trazia consigo uma mochila e ela a roupa do corpo, ao chegarem na estrada ele perguntou:
– E agora?
– Me diga você.
Ele não disse mas pegou na mão dela e começaram a andar.
– Você acredita em amor a primeira vista? – ele perguntou.
Ela pensou um tempo quase disse não, mas essa era Joana, e Larissa era diferente.
– Talvez. – Disse sorrindo sem olha-lo nos olhos mas soube que ele também sorria.
Demorou um tempo até falarem alguma coisa novamente, e quando falaram era sobre música, filosofia e até artes, ela se surpreendia consigo mesma, com as coisas que conseguia lembrar, e ele parecia saber um pouco sobre muitas coisas, e sempre sorria. Ela ouvia as vezes concordando em outras discordando. Não era mais a Joana que se deixava levar e evitava conflitos, Larissa deixava claro suas posições.
Voltaram ao farol e caminharam na praia, comeram em restaurantes e ele sempre pagava tudo, apesar da aparência simples ele parecia ter bastante dinheiro, o dia foi agradável e passou rápido, mas pelo menos umas duas vezes ela viu uma viatura policial e ficou apreensiva. Em uma das vezes Rafael falou:
– Não sei porque você fica apreensiva com a polícia, não estamos em um filme e na vida real as coisas tem um ritmo diferente mantenha a calma e não levante suspeitas, isso geralmente é suficiente. – terminou a frase com um sorriso.
“Ele viu a reportagem, ele sabe” pensou Joana que agora era Larissa, no entanto, ele não perguntou mais nada, o que a deixava desconfiada, mas ao mesmo tempo adorava isso. Mesmo assim ela sugeriu que fossem até outra cidade, e ele aceitou, como sempre sem questionar os motivos. Pegaram um ônibus, e quando chegaram, acabaram indo em um shopping, onde ele a convidou para o cinema, era um filme que misturava romance e ação, e de certa forma ela se emocionou com o enredo em como a mocinha acabava se sacrificando por quem amava. Depois do filme já estava tarde e a praça de alimentação estava fechada, depois de andarem um pouco passaram por um hotel, ele a convidou para passarem a noite ali e ela aceitou.
Na cama, deitado ao lado de Rafael ao olhar a tranquilidade em seu rosto, um sentimento de culpa começou a incomoda-la, mas agora era Larissa e não esconderia as coisas que a incomodassem, e falou:
– Poderia ter matado um homem hoje, não que não tenha tentado, mas ele certamente ficou bem ferido. – disse olhando para o teto.
– Certamente ele mereceu. – disse ele também olhando para o teto.
– Olha eu estou falando a verdade – disse ela sentando na cama.
– Eu acredito, vi sua foto na TV hoje de manhã, além do mais explica o sangue em sua roupa. – disse ele ainda olhando para o teto.
– Isso não te incomoda?
– Não, a não ser que esteja pensando em fazer o mesmo comigo – disse ele, e virando-se, olhou nos olhos dela com aquele sorriso que a desarmava estampado no rosto e perguntou – você está pensado em fazer isso?
– Não disse ela sorrindo, mas certamente não seria inteligente você me irritar – e o beijou, houve um tempo em que esperaria ser beijada, sempre tivera medo de não ser correspondida mesmo em ocasiões que era óbvio que seria, mas essa era Joana, agora ela era Larissa e não teria mais medo de algo tão bobo.
– Já que você decidiu falar isso para mim me obrigo a te contar também. – disse ele sentando na cama. –Eu não sou bem o tipo mocinho sabe – ele levantou pegou a mochila e mostrou a ela o interior, estava cheia de dinheiro.
Ela o olhou sem entender direito.
–Eu roubei. – Ele disse simplesmente.
Ela olhou novamente o dinheiro e percebeu que algumas notas pareciam um pouco queimadas.
– Como? – Acabou perguntando.
­– Eu e mais dois explodimos alguns caixas eletrônicos. – Disse ele sorrindo, ela lembrou de ter ouvido algo nos jornais, houve um tempo que isso a teria incomodado, mas essa era Joana, Larissa que tinha enfiado uma tesoura no olho do chefe, jamais se preocuparia como algo assim.
– Os caixas eletrônicos provavelmente mereceram. – Foi o que acabou falando e os dois riram. E dessa vez foi ele que a beijou.
No outro dia de manhã após saírem do hotel andavam de mãos dadas e ela sentia-se viva, como nunca antes havia sentido, não se preocupava com o amanhã nem o depois, gostava do toque da mão dele, gostava de ser quem era, não tinha ilusões sobre o futuro, nem sobre o romance, sentia que eles poderiam separar-se, sentia que podia ser presa, e não se preocupava, estava ocupada de mais vivendo. E tudo isso fazia com que se sentisse livre, verdadeiramente livre, pois sabia que só podia ser livre no momento que estava vivendo, ninguém era livre no passado ou no futuro, pois eles não existem, ela era livre porque só se preocupava com o momento, em esgotar ao máximo cada minuto. E quando passaram por policiais que andavam pela calçada não sentiu medo.
Quando sentaram-se em um restaurante para comer, na televisão passava um jornal, e ela não ficou surpresa quando viu seu rosto na tela, mas um pouco decepcionada quando soube que seu chefe já passava bem em casa.
– Bom, você devia ter se esforçado mais, ao que parece ele passa bem – Disse Rafael sorrindo, como se advinha-se os pensamentos dela.
– E você deveria escolher melhor os seus parceiros – disse ela indicando a televisão que agora noticiava sobre o assalto aos caixas eletrônicos. Ele olhou para a tela viu seus companheiros presos e uma foto sua também divulgada.
– É o que está parecendo – disse ele voltando a comer.
Eles almoçaram normalmente, conversaram um pouco sobre religião, ele era ateu convicto, mas quando ela pensou sobre isso, lembrou que Joana era muito religiosa, mas Larissa, simplesmente não dava a mínima e disse:
– Não sou religiosa e nem ateia, muito pelo contrário. – Ele riu ao ouvir, e a convidou para caminhar em um parque que tinha visto do hotel, ela aceitou, eles terminaram e quando estavam pagando a conta perceberam que o balconista estava muito nervoso, errou o troco e gaguejou ao agradecer. Quando saíram Rafael falou:
– Ele nos reconheceu, provavelmente vai chamar a polícia.
Ele olhou porá trás e o viu pegar o telefone.
– Concordo – disse ela – o que faremos?
– Precisamos de um carro.
Ela acenou positivamente com a cabeça e não questionou, aceleraram os passos, ela percebeu que ele muito discretamente verificava os carros pelos quais passavam. Pararam em frente a um carro que ela realmente achou bem antiquado.
– É um Diplomata ­– disse ele com um sorriso realmente feliz no rosto, e quando viu a expressão dela explicou: ­– é antigo mas bem potente, e parece estar sem alarme.
Ele pegou algumas ferramentas na mochila “quantas coisas cabem nessa mochila”, pensou Joana que agora era Larissa e mais rápido do que ela achou que seria, abriu o carro.
Eles entraram ele puxou alguns fios debaixo do painel e descascou com os dentes e tentou fazer uma ligação direta, mas o carro não pegava.
– Você tem certeza que estes são os fios certos? – Perguntou ela.
– Tenho sim – respondeu ele – esse carro deve ter “corta corrente”, por isso não tinha alarme.
Ela o olhou sem entender direito.
– É um botãzinho de liga/desliga provavelmente em baixo do painel ou do banco.
Ela não perguntou mais nada e começou a procurar o botão junto com ele. Depois de alguns instantes ela disse:
– Encontrei algo que se parece com um botão.
– Então aperte.
Ela apertou e ele fez o carro pegar.
A rua não permitia conversão então eles tiveram de passar novamente pelo hotel e na porta da frente estava o balconista com dois policiais, e antes que pudessem disfarçar ele os viu no carro e os apontou aos policiais, que imediatamente foram para a viatura, Rafael acelerou aproveitando o pouco transito, mas não conhecia direito a cidade, e não demorou para reconhecer a viatura pelo espelho retrovisor.
Joana que agora era Larissa o guiava, e ele não questionava onde estavam indo mesmo ela não sabia direito onde estava indo simplesmente apontava as ruas pelas quais acreditava que precisavam entrar. Não demorou muito e despistaram a polícia, pelo menos pensaram que sim, no entanto ele continuou a acelerar, pegaram a estrada que levava de volta para a cidade de Joana que agora era Larissa, e lá ela continuou a indicar o caminho.
– Eu sei onde estamos indo – disse ele fazendo aquele sorriso que ela adorava – é um bom lugar.
Mas antes que ela pudesse dizer algo ouviram sirenes, de alguma forma a polícia estava novamente atrás deles.
– Provavelmente os policiais da outra cidade avisaram as cidades próximas informando a placa e o modelo do carro – explicou Rafael.
 A polícia os perseguia enquanto eles iam em direção ao farol, ao Morro dos Conventos, mas não foi como nos filmes a polícia não atirou nem tentou bater neles, eram duas viaturas e os seguiram até o topo do morro onde os cercaram, ainda dentro do carro os dois se olharam e mesmo sem palavras se entenderam, da mochila ele tirou uma arma, ela consentiu com a cabeça e saíram ambos pela porta do carona ela na frente e ele apontando a arma pra cabeça dela, os policias gritavam para ele soltar a arma e se acalmar enquanto ele gritava que a mataria, nesse momento ela teve de segurar o riso, não por saber que ele não atiraria, mas simplesmente acha absurda a ideia de que precisava ser salva, de que deveria estar com medo.
Ela podia ver a confusão dos policiais, eles achavam que eram um casal, que eram parceiros e agora ela era uma refém, nesse momento ele falou baixinho no ouvido dela:
– E agora?
– Agora vamos devagar em direção ao paredão – respondeu ela quase sem mexer os lábios.
Os policias continuavam tentando negociar, enquanto ele gritava que a mataria se chegassem mais perto. Quando chegaram bem próximos do precipício ele perguntou.
– Você está pensando em cair para a morte? – ela apenas sorriu – Não acha isso um pouco dramático de mais – insistiu Rafael.
– Sim eu sei que é dramático – respondeu Joana que agora era Larissa – mas não me importo, e não estou pensando em cair, só gostaria de saber como é voar.
– Voar seria uma experiência nova para mim – disse ele sorrindo e pegando não mãe dela completou – e seria melhor ainda com você.
Ela sorriu também e ambos se precipitaram do penhasco, ela fechou os olhos, não por medo, ela não sentia medo, só queria sentir o vento no rosto, sentir a liberdade, nunca estivera tão livre, tão serena, não havia arrependimentos e nem culpa, só o vento no rosto e o calor da mão dele, ela não sentia-se caindo, ela estava voando.
– Joana – chamou ele, mas ela não respondeu, estavam voando e ela pensou que ele estava sendo muito insensível por querer falar nesse momento.
– Joana – disse ainda mais alto, e só então ela lembrou que não lhe dissera esse nome.
– Você não está me ouvindo – falou ainda mais alto e ela parou de sentir o vento no rosto, já não se sentia livre, não estava mais serena. Quando sentiu o toque em seu ombro abriu os olhos. Quando o fez percebeu que estava na fábrica sentada em seu lugar, e era seu chefe quem a chamava “ele não devia ter me tocado” pensou Joana que era Joana novamente, olhando para uma tesoura a sua frente, que não devia estar ali.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Cerração

Eis que o relógio marca 12 horas e a cerração ainda teima em acinzentar o dia, e essa paisagem desoladora que se cria juntando o vento e o frio penetra em minha alma.

Talvez não pelo simples fato de ser, mas, por de alguma forma habitar minha mente.

Talvez me pareça ainda mais desoladora por refletir meus sentimentos.

De fato sinto que essa bruma permeia meus pensamentos, que esse frio gela meu coração e que esse vento sopra meu otimismo...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

ILHA

Me sinto como uma ilha de memórias cercado por distâncias.



No entanto sei e sinto que a maior distância começa e termina em meu peito.

sábado, 27 de setembro de 2014

PARADOXO



Sentado aqui vejo um horizonte de contrastes.
Vejo maquinas trabalhado alheias aos pássaros que voam por perto, alheias ao sol e ao calor que ele oferece em contraponto ao frio.
E vejo a mim trabalhando alheio ao tempo que passa impiedoso.

Sentado aqui percebo que estou distante demais de tudo.
E é a distância, um mal que me faz viver o paradoxo de não querer que os dias terminem, ao mesmo tempo em que quero que chegue logo o dia de ir ver quem me faz bem.