terça-feira, 24 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...



Obs: final da história das ultimas três postagens.
 
4
 Larry o seguiu até o terreno baldio já estava bem escuro, as nuvens tapavam a lua tornado a noite ainda mais densa, James parou em frente ao terreno, escorou-se ao lado de um pequeno prédio onde ficou praticamente fora de vista, mesmo quem passasse pela rua dificilmente o perceberia.
Não tardou a avistar Robert, acenou e foi a seu encontro. Ele estava praticamente no mesmo lugar.
– Ele continua no mesmo lugar – perguntou Larry
– Sim, – respondeu Robert – como havia lhe dito ele só sai se algum homem passar por aqui.
– É eu me lembro. Na verdade tenho que lhe contar algo muito estranho que aconteceu hoje – e Larry contou a Robert tudo o que havia acontecido desde o encontro na rua, o papagaio até chegar ali, Robert ouviu tudo com atenção e assombro.
– Sabe não duvido de mais nada e houve um tempo que iria rir de tudo isso que você falou, mas diante das circunstancias. Para ser sincero hoje a mais ou menos uma hora atrás dois homens vieram aqui usavam também o colarinho romano acho que eram padres, na verdade um deles se parece muito com o que você descreveu, eles olharam o terreno por um, tempo pareciam olhar exatamente para onde o monstro está, mas não entraram no terreno. Depois tive a impressão que olharam para mim, então voltaram e entraram naquele carro. – disse apontando para um carro não muito longe com os vidros escuros que impedia de se ver o interior, estava estacionado entre outros dois carros não parecia suspeito.
– Como lhe falei eles não nos vêem mas podem sentir. – explicou Larry – vou até lá e olhar dentro para vêr se é o mesmo padre. – Robert acenou com a cabeça mas ficou no mesmo lugar.
Ao chegar no carro Larry enfiou a cabeça pra dentro através do vidro e não teve dúvidas era o mesmo padre. Eles olhavam em direção a James, mas quando ele chegou perto por um momento eles desviaram a atenção.
– Ele não está mais lá – disse Abdias olhando novamente para onde estava James.
– Onde ele pode ter ido – perguntou desorientado o padre.
Larry também não o via mais, mas antes que pudesse formular qualquer hipótese James surgiu aparentemente do nada pulando no capo do carro e com a espada medieval quebrou o pára-brisa do carro.
– Vieram me espionar?  Acharam mesmo que não os perceberia aqui?
Sem responder os padres desceram do carro atônitos.
– Estamos aqui pelo mesmo motiv... – começou a responder o padre, mas antes de terminar a frase James o acertou com um chute que o deixou desacordado.
No mesmo instante Abdias sacou duas espadas curtas que Larry achou parecidas com as que os romanos usam em filmes.
 – Porque você o atacou? – perguntou Abdias.
Larry o olhou bem, era um homem muito grande e provavelmente também um padre, usava um terno impecável como o do colega, e a seu exemplo tinha os cabelos pretos penteados par atrás, os olhos eram tão pretos que não se podia ver as pupilas. E um olhar feroz de caçador.
– Porque tive vontade, porque posso, tanto faz, – respondeu James – o que você pretende fazer?
Abdias não respondeu.
– Você foi bem treinado não foi? – perguntou James ­– Posso ver em seus olhos que nunca perdeu – Abdias deixou escapar um sorriso leve ­– é estou certo – continuou James – e deve estar chateado por precisarem de mim não é? Deve estar louco para enfrentar o monstro, e mais ainda para me enfrentar, você deve ter crescido a minha sombra, sempre sabendo que eu fui e ainda sou o mais forte que a ordem treinou, sei como é querer o desafio sei como é querer ser o mais forte, no entanto enquanto eu estiver vivo você estará sempre a minha sombra.
– Você é um traidor. Traiu a ordem traiu a fé. Você não merece os símbolos tatuados em seu corpo, não merece estar vivo! – disse Abdias apertando as espadas.
– Você não terá outra chance de me enfrentar, eu já derrubei o outro, tenho a impressão que você não deve ser muito mais forte. – provocou James.
– Eu sei o que você esta fazendo, – retrucou Abdias sorrindo e aproximando-se – você quer que eu ataque primeiro, quer conseguir uma vantagem, mas ambos sabemos que o primeiro ataque se bem sucedido da à vantagem pra quem ataca.
– Pelo visto você esta com medo de atacar ­– James continuou a provocar.
– Porque teria medo de um verme traidor como você? – Abdias retrucou novamente. Aproximou-se mais um pouco, Larry percebeu isso, mas James parecia alheio a esse fato, parecia arrogante de mais, parecia certo da vitória. E quando Abdias terminou de falar ele riu alto, e ao rir levantou a cabeça deixando por um momento o adversário sair do seu campo de visão, Larry não entedia achava que James era um lutador melhor do que isso.
Abdias não perdeu tempo e usou isso para atacar, e apesar do tamanho era extremamente rápido mais rápido do que Larry podia acompanhar, no entanto de alguma forma James conseguiu se esquivar mas não sem levar um corte no peito, não era profundo mas o sangue começou a escorrer e encharcar a sua roupa. Abdias não parou o ataque e continuou avançando aproveitando a vantagem, James era igualmente veloz, mas começara em desvantagem, e a espada medieval parecia grande e desajeitada em sua mão e tudo que podia fazer era recuar e defender-se, a luta estendeu por quase um minuto, no entanto parecia muito mais longa por causa da incansável troca de golpes.
– Se aquele que você chama de James continuar recuando vai acabar entrando no terreno baldio. – Alertou Robert, que agora assistia a luta com Larry.
No entanto quando James estava prestes a entrar no terreno, sua expressão mudou, antes parecia surpreso e assustado, agora estava sorrindo e a espada que antes parecia desajeitado em sua ficara ágil e leve, e em poucos golpes era Abdias que se defendia e começava a recuar.  Antes de se afastarem novamente do terreno James diminuiu o espaço entre ele e invadiu a guarda do inimigo, soltou à espada e com um golpe que Larry achou parecido com que judocas usam, ele arremessou Abdias para dentro do terreno, esse por sua vez levantou-se muito rápido e aproveitando que o inimigo estava desarmado conseguiu encostar uma espada no pescoço de James enquanto a outra pairava em posição de ataque.
– Foi um bom golpe – disse Abdias – mas custou perder sua espada o que torna esse golpe um fracasso, pois não permitirei que você a recupere.
– Na verdade acho que você tem mais com que se preocupar no momento. – disse James, e no mesmo instante o monstro soltou o rosnado assustador, e só então Abdias se deu conta que estava dentro do terreno enquanto James estava ainda na calçada. Abdias olhou brevemente para trás em direção a coisa, tempo suficiente para James se afastar e recuperar a própria espada.
– Você bolou isso. – esbravejou Abdias – desde o começo queria me usar como isca.
– Sim, e agora você tem a chance de mostrar seu valor contra o monstro.
Abdias se virou e ficou em posição, o monstro era rápido e vinha em sua direção.  No entanto ele não ficou passivo esperando o ataque, lançou-se em direção ao inimigo. Os olhos vasculhando procurando um ponto fraco procurando onde atacar e tentando prever que tipo de ataque poderia sofrer.
Quando estava bem próximo o monstro lançou um ataque com uma espécie de tentáculo, ele esquivou-se e atacou o flanco do inimigo, que soltou um urro impossível de definir se era de dor ou de fúria, outro tentáculo que parecia escondido acertou Abdias, arremessando-o ao chão, que rolou e parou em pé e novamente atacou, dessa vez pelo outro lado, os cortes que produziu foram bem mais profundos, mais uma vez a criatura urrou, e atacou. No entanto dessa vez encontrou o oponente preparado e acertou apenas o ar. Abdias produziu mais dois cortes antes de se afastar, mas ao fazer isso percebeu que os cortes anteriores estavam se fechando.
Pela primeira vez Abdias pensou em fugir, mas o monstro urrava mesmo sem ser atacado e projetou-se ainda mais rápido para cima dele, o golpe foi ainda mais poderoso, e por alguns instantes Abdias não sentiu o chão, quase perdeu a consciência ao se chocar contra o muro, uma de suas espadas tinha se perdido e ele nem lembrava como, segurou a que lhe restava nas mãos com força, morreria lutando, a muito lhe tinham preparado para a morte, sempre sentiu orgulho em ser sincero quando afirmava não temer a morte, no entanto, agora que ela estava tão próxima, sentia-se estranho, queria ter vencido o traidor, queria pelo menos tê-lo ferido, mas não conseguiu, esse parecia estar em outro nível, no começo da luta, achou realmente que podia vencer que todas as lendas que falavam sobre ele eram realmente só lendas, mas então descobriu que ele esteve só brincando.
Quando percebeu o tentáculo vindo em sua direção tudo que pode fazer foi levantar a espada, mas isso de pouco adiantou, mais uma vez foi arremessado longe, dessa vez para fora do terreno caiu perto de James, que sem perder tempo o pegou colocou nos ombros com uma facilidade inacreditável “o quão forte este homem é?” indagou-se Abdias, e como se não carregasse nada James começou a correr, o monstro saiu no encalço.
– Olhe o monstro parece bem mais rápido do que quando me caçou! – Disse Larry
– Sim e esta mesmo. –constatou Robert.
E quando tinham se afastado uns cinquenta metros do terreno, James parou e colocou Abdias no chão, esperou a criatura chegar mais perto, e então em uma velocidade inumana pegou Abdias pelo braço e o jogou em direção ao monstro.
– O que ele esta fazendo? – perguntou Robert.
Mas antes que pudesse obter resposta o monstro agarrou Abdias pelas pernas e braços, e ele pode sentir seus ossos quebrarem sob a pressão que os tentáculos faziam, mas não berrou, olhava o monstro decidido a não morrer em desonra, não gritaria e não imploraria nada, nem misericórdia nem ajuda, mas quando viu a monstruosa boca se abrindo sentiu sua determinação minar, sentiu medo, fechou os olhos e esperou.
Mas o que se seguiu foi um urro, não seu do monstro e quando abriu os olhos viu chamas arderem sob seu algoz e mais uma vez foi arremessado, mas dessa vez para o alto, Abdias sentia com se estivesse voando, percebeu que talvez já estivesse começando a delirar e esperou o encontro com o chão, novamente fechou os olhos e esperou a dor mas não doeu. Quando abriu os olhos estava de pé de frente para seu corpo. “Então acabei morrendo” pensou. Olhou em volta o Monstro rolava no chão como se tenta-se apagar as chamas, viu James pegar uma bola de vidro de cor alaranjada do bolso e se aproximar cuidadosamente do monstro, este rolava e urrava tentando apagar as chamas mas sem sucesso.
– Queima ele – Abdias escutou um grito atrás de si e ao olhar viu dois homens semitransparentes, um com os braços levantados visivelmente feliz por ver a criatura queimar o outro só olhava. “Provavelmente homens mortos polo monstro assim como eu” pensou.
James esperou até que o monstro abrisse a boca e quando isso aconteceu  atirou a bola para dentro dele, por alguns segundos silencio, até que explodiu em milhares de pedaços flamejantes, incendiando o que quer que encostassem. James juntou as mão com os dedos entrelaçados, e entoou um cântico em uma língua que nem mesmo Abdias conhecia e o fogo foi se extinguindo aos poucos.
– Olhe – disse Larry, apontando para o lugar onde o monstro explodiu. Ali estava uma garota nua, aparentemente um pouco queimada, mas viva.
– Ela estava dentro do monstro? – Perguntou Robert estupefato.
– Não – disse Abdias chegando perto dos dois – ela era o monstro.
– Como assim? – perguntou Larry.
– Essa menina tem por volta de 17 anos, foi estuprada aqui neste terreno e deixada a beira da morte. No entanto ela não era alguém comum, possuía um poder espiritual enorme, e provavelmente um demônio se aproveitou de seu momento de agonia e fez um pacto com ela, prometendo vida e vingança, ela sem dúvida aceitou e transformou-se naquilo que vocês viram, naquilo que nos matou.
– Mas o que o demônio ganharia com isso? – perguntou Robert.
– A alma dela, e das pessoas que ela matasse.
– Mas estamos aqui – interpelou Larry – nossas almas ainda estão nesse mundo.
– Sim, isso é verdade, também não entendo muito bem – disse Abdias –não tenho todas as respostas.
– Olhem – disse Larry apontando para James, que desembainhava a espada de ouro e chegava mais perto da menina.
– Me ajude – pediu ela quando ele se ajoelhou ao seu lado – matei pessoas, eu lembro de tudo, estava com muito ódio muita raiva e os devorei, meu Deus eu os devorei – disse ela irrompendo em lagrimas – e pior é que estava gostando, mas eu não queria isso, eu juro que não. – ela olhou em volta como se lembrasse de algo – ela me prometeu vingança prometeu vida, disse que me sentiria bem, mas eu não queria isso... – e dessa vez o choro a impediu de continuar falando.
– Eu sei, doce criança – disse James em um tom conciliador – eu sei, e prometo que o sofrimento vai passar – disse abraçando-a. Quando o choro diminuiu ele a olhou nos olhos, e com o sangue que escorria de seu peito desenhou nela palavras na testa e na barriga da menina, enquanto entoava outro cântico na mesmo língua de antes.
– Que linga é essa? – perguntou Larry
­­– Aramaico – respondeu Abdias – mas não o conhecido atualmente, é um dialeto perdido mesmo antes do nascimento de Cristo, poucas pessoas no mundo conhecem, e menos ainda podem falar, pois consome energia de quem o fala.
James a olhou nos olhos, já não chorava parecia hipnotizada ele abriu a boca ela também e uma espécie de fumaça azul começou a passar da boca dela para a dele.
– Ele esta consumindo os pecados dela, esta assumindo o pacto e tudo mais – disse Abdias estupefato.
James foi se aproximando e a beijou, ela fechou os olhos, mas ele demorou a fechar os dele, e quando o fez ela os abriu, pois nesse momento a espada de ouro transpassou seu jovem coração. Morreu sem se debater com os lábios ainda encostados nos dele.
– Estou morta? – disse uma vós atrás dos três espectadores semitransparentes.  – ele me matou enquanto me beijava?
Ela ainda estava nua, mas sem os machucados, tinha os cabelos escuros e volumosos, a pele parecia mármore branco, os olhos escuros tão negros que não se via a menina dos olhos. E mesmo assim semitransparente era muito sensual. – como é linda ­– pensou Larry, e ficou espantado com a atração que sentiu, achou que não teria mais isso agora que estava morto. E perguntou-se se ainda podia ter uma ereção.
– Também não entendo porque a matou – disse Abdias – ao menos ele consumiu seu pecados e...
– Isso mesmo, e assim sendo você poderá vir comigo – disse uma mulher que simplesmente apareceu entre eles, tinha a pela negra, e os cabelos cacheados amarrados em rabo de cavalo. Os olhos eram azuis e cintilantes pareciam brilhar assim como sua pele. Estendeu a mão para a menina e começaram a andar de mãos dadas, nem bem deram três passos e não estavam mais lá.
– Era um anjo? – Perguntou Robert.
– Provavelmente – respondeu Abdias – mas nunca tinha visto um então não posso afirmar.
­– Talvez fosse o demônio reclamando a alma dela – indagou Larry
Mas antes que alguém pudesse responder qualquer coisa um risada muito alta chamou a atenção deles.
– Bom, demônio posso dizer que não era. – disse uma mulher saindo da sombras, estava muito bem vestida em uma roupa social poderia até se dizer que era empresária, tinha os cabelos loiros, olhos verdes e pele muito branca, mas diferente da outra mulher tudo parecia opaco sem vida. Atrás dela aparecerem sete homens todos de cabeça baixa, vinham enfileirados como se estivessem acorrentados. No entanto não se via corrente ou corda alguma.
– Ei, ali estão os caras que vi o monstro matar. – disse Robert.
– Você viu ele matar todos eles? – Perguntou Abdias.
– Não, mas não acho que os outros tenham tido mortes diferentes.
– Bem perspicaz – disse a mulher em tom de zombaria e estendeu a mão para Robert. Este juntou as próprias mão como se estivesse algemado e entrou na fila também de cabeça baixa. O mesmo se seguiu com Abdias. E quando ela estendeu a mão para Larry ele perguntou:
– Eu estou indo para o inferno? – ela não respondeu só riu a mesma gargalhada alta de antes.
– Queria mesmo era a alma da garota, mas até que não foi de todo perdido – disse a mulher olhando para os homens em fila.
Larry em ultimo na fila percebeu que não podia falar nem levantar a cabeça, mas seus pensamentos ainda eram todos seus. Percebeu que seria sempre assim, ele não sabia o que o esperava, mas se o que aprendeu sobre religião estava certo, ira sofrer muito e não haveria sentido nisso se ele não pudesse entender o que estava sentindo, estaria sempre se culpando e culpando outros por estar ali, sempre sofrendo e sabendo que não haveria escapatória, que seria uma eternidade de sofrimento. Não pode deixar de sentir raiva pela injustiça, por ter sido condenado por pecados de outros.  E assim, em silêncio seguiu na fila preso em seu pensamentos.
O padre que esteve desacordado desde o chute de James, recobrou a consciência, olhou em volta, já estava amanhecendo e tudo o que viu foram dois corpos o da menina e de seu companheiro. Levantou-se, foi até Abdias e conferiu seus sinais vitais, depois os da menina, tirou um celular do bolso e ligou.
– Problema resolvido, mas temos uma baixa, Abdias já não se encontra entre nós.
­– E Piatã? – perguntou a voz no outro lado da linha.
– Não esta mais aqui, deve ter fugido, agora usa o nome James.
– Tudo bem nós o encontraremos novamente, uma equipe de limpeza já esta a caminho.
O padre desligou o telefone sentou no meio fio e esperou.

sábado, 7 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...



Continuando as duas ultimas postagens... 

3
– Você pode me ver? – perguntou Lerry a James – Pode me ouvir? – mas ele não esboçou reação nem uma, olhou sem expressão a porta por um tempo depois levantou-se pegou as velas e foi até o quarto, em seu criado mudo estava um candelabro velho esculpido em madeira, sem detalhes e com o verniz descascando. Era um candelabro para três velas mas havia somente uma apagada que já estava pela metade, ele pegou duas das velas que o lhe tinham trazido e com cuidado as colocou no candelabro, a terceira enrolou em uma flanela e guardou na gaveta do criado mudo. Pegou uma faca e uma caixa de fósforos que estavam na mesma gaveta, com a faca fez um corte profundo no antebraço, o sangue verteu vermelho e muito expeço. Com o braço ainda sangrando acendeu uma das velas novas e antes de apagá-la olhou para o antebraço o corte cicatrizou instantaneamente sem deixar cicatriz, mas não foi só isso Lerry podia jurar que aquele homem tinha ficado mais novo, não dava para ter certeza mas ele estava mudado, ao menos estava com uma expressão melhor, antes parecia muito cansado, agora estava rejuvenescido.
– Sei que você esta ai, – disse James – no entanto não posso te ver nem ouvir, mas sinto sua presença e junto com ela a marca do que o matou, não sei o que é, e provavelmente você também não, mas mesmo assim, talvez fosse bom ouvir o que tem a dizer, talvez de um jeito nisso até o anoitecer.
Deitou-se e depois de um tempo adormeceu, Larry não sabia o que fazer, no entanto esperou, apesar de não ter dormido desde que morrera, sentia-se tão bem quanto podia naquela situação, nunca tinha pensado se fantasmas dormiam, mas aparentemente não precisava disso. Tantas coisas o qual estava enganado, sempre fora um ateu convicto, ainda não sabia se acreditava em Deus, mas antes duvidava de tudo da existência de vida pós morte de fantasmas e duvidava acima de tudo da existência de monstros.
De repente percebeu que estava cansado sim, não fisicamente, pois não tinha um corpo físico pra isso era sua mente que estava cansada, mas isso já vinha de antes de morrer. Antes estava cansado da vida e isso era no mínimo engraçado agora que estava morto, não gostava do trabalho não gostava do patrão, nunca tinha se casado, certa vez até se apaixonou por uma garota, ficou com ela um tempo, mas ela foi embora sem explicar sem dizer adeus, ele achou que choraria mas não chorou, ninguém ouviria, ninguém realmente ouve, também não sabia se queria que ouvissem.
Depois disso ficou muito tempo sem ninguém, “estou cansado de estar tanto tempo em minha companhia” pensou. Desde antes de sua morte a palavra solitário parecia cada vez mais adequada.
Passou as mãos no rosto e não pode sentir a barba por fazer, não pode sentir o próprio rosto. Sentiu uma crescente incoerência em sua mente, uma incontinência de ideias e uma total falta de simetria entre elas, achou que entraria em pânico, mas não entrou, talvez não pudesse fazê-lo agora.
Sentia-se vulnerável, e carrancudo a perna coçava, mas quando levou a mão era como se não houvesse perna. Olhou as mãos semitransparentes e não sabia o que sentir.
Estava morto e tudo o que sentia era apatia, um declínio ao desinteresse. Sentiu vergonha da própria inabilidade que tinha com seus sentimentos enquanto era vivo. Muitas vezes parecia estar na beira de um abismo, agora percebia que o abismo estava dentro dele, na verdade ainda continuava ali escuro e profundo.  Teve vontade de pular e esconder-se ainda mais dentro de si próprio. Mas no fim onde isso o levaria? Antes sentia-se solitário, mas só agora entendia realmente esse sentimento, e isso sim o amedrontava.
Olhou para cama e o homem que no mesmo dia fora chamado de Piatã e James estava dormindo profundamente, tentou imaginar quem ele era, sua história, como ele poderia ajudar, mas não tinha ideia e também não podia perguntar, mas ainda sim algo o prendia ali, algo no fundo de sua mente o fazia esperar, a principio achou que era curiosidade, mas não era isso, o que sentia era esperança, algo nele inspirou esperança, não entendia como, mas estava mais claro agora, de alguma maneira sentia-se esperançoso.
Olhou novamente e ele havia acordado, olhando para o teto.
– Hora de falar com você, já esta escurecendo e pretendo resolver isso o quanto antes. – Disse James levantando-se e abrindo o armário de lá tirou uma mochila e dentro dela a um papagaio morto, uma barbante que parecia feito de ouro e um giz branco. Com o giz fez dois círculos no chão desenhou alguns símbolos em volta que Lerry nunca tinha visto, esticou o barbante entre os círculos com um laço em cada ponta pegou o papagaio e devia estar fedendo pois ele torceu um nariz quando o colocou dentro de um dos círculos, outra coisa que Lerry não tinha pensado, não sentia cheiro. James colocou um laço no pescoço do papagaio pegou seu candelabro e colocou no círculo também.
– Como não sei seu nome nem tenho nada seu como um fio de cabelo, peço a você que entre no círculo e coloque um pé no laço.
Larry, mesmo estando desconfiado, achou que não tinha muito mais o que perder e obedeceu.
– Agora suponho que já esteja dentro do círculo – disse James e fez um pequeno corte na mão e com o sangue desenhou outro símbolo no papagaio e acendeu a vela, como antes o corte cicatrizou, mas para espanto de Lerry o papagaio ganhou vida, a bem da verdade, parecia mais um papagaio zumbi, os olhos estavam vidrados sem vida no entanto levantou e ficou ali meio cambaleante.  James entoou um cântico em uma língua que Lerry nunca ouvira antes e o laço que estava em baixo de seu pé apertou no tornozelo e ele sentiu queimar. Isso talvez tenha sido que mais o surpreendeu acreditava que nunca mais sentiria dor, e pela primeira vez pensou que talvez existissem coisas piores do que a morte.
– Fale – disse James, mas Lerry ainda confuso não soube o que fazer – vamos, fale não temos muito tempo a mágica sempre cobra seu preço. Diga-me seu nome?
– Larry – respondeu, mas a voz que ouviu não foi a sua e sim a estridente e aguda do papagaio.
– Bom, agora me diga o que aconteceu no dia em que morreu, fale rápido mas não se esqueça dos detalhes eles são importantes.
Lerry narrou os fatos a partir do momento em que cruzou o terreno baldio e contou tudo o que lembrava e quanto mais contava melhor se lembrava, no fim de dez minutos havia falado tudo até o momento em que começar a seguir James. Acreditava não ter deixado nem um detalhe de lado.
Satisfeito o homem em sua frente balançou a cabeça e apagou a vela no mesmo instante o papagaio caiu novamente morto e o laço em seu tornozelo afroxou.
– Espere... – tentou falar, mas à voz já não era mais a do papagaio e soube que não seria ouvido. James abriu o armário, afastou as roupas e de um fundo falso, tirou três espadas, Larry não era um conhecedor de espadas, mas essas podia diferenciar a primeira que tirou era uma katana japonesa em uma bainha simples que ele contemplou por alguns instantes antes de tirar uma espada muito maior e pesada, era uma espada medieval muito bonita com uma bainha que parecia ser de cobre. O cabo era entalhado e parecia ter filetes de ouro, a terceira espada era provavelmente uma cimitarra, certa vez lera em alguma revista que as cimitarras verdadeiras eram diferentes das representadas em filmes, eram menores e extremamente ágeis podendo ser usadas só com uma mão, diferente das corpulentas e pesadas cimitarras de Hollywood.
Essa era maior que a katana e menor que a medieval não tão simples quanto à japonesa, porém não tão soberba quanto á européia. Tinha a bainha de couro com símbolos estampados e apesar de ser simples era elegante, mas ficou realmente surpreso quando ela foi desembainhada, aparentemente era feita de ouro. Era obviamente uma espada para enfeite uma decoração, pois ouro certamente não era o melhor metal para uma espada.
James guardou a katana, colocou a medieval nas costas e a cimitarra na cintura vestiu seu sobretudo o que disfarçou bem as espadas, exceto cabo da espada em suas costas que se projetava ao lado de sua cabeça, mas ao levantar a lapela que era anormalmente grande, o cabo passaria despercebido, pegou na mochila três pequenos potes de vidro transparente, dentro havia uma espécie de liquido alaranjado que mais parecia fumaça e com muito cuidado os colocou em bolsos separados.

Continua...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...



(Continuando a ultima postagem)
 
2
(...)“Ele esta obcecado” pensou Larry enquanto caminhava pelas ruas, “mas afinal não será estranho eu não estar?” Não sabia como agir tinha morrido de uma maneira no mínimo impensável, isso sem falar que o simples fato de que morrer é em si algo assustador pelo menos era quando estava vivo, agora que vagueava sem ser visto pelas ruas não tinha medo, talvez fosse tudo uma questão de perspectiva, estava morto o que mais poderia temer? Sua mãe que sempre fora muito religiosa o ensinara a temer o inferno, mas desde a faculdade tinha se tornado extremamente cético. Mas ele estava ali, era uma espécie de fantasma e isso era outra coisa que duvidara sinceramente enquanto estava vivo, no entanto estava ali semitransparente aos próprios olhos e totalmente invisível para  as pessoas. Também tinha se mostrado equivocado quanto à existência de monstros, tinha sido devorado por um. Não saberia dizer o que “aquilo” era, não se via pernas ele parecia rastejar, mas fora rápido o suficiente para alcançá-lo e tinha a impressão que podia ser ainda mais rápido se fosse necessário, eram três braços ou que quer que sejam, em que pontas pareciam ser ventosas não se percebia uma cabeça os olhos eram grudados naquilo que podia se identificar como corpo e uma boca gigantesca que só se identificava quando ele a abria, não chegou a ver dentes mas a julgar barulho que seu corpo fazia enquanto era devorado... Larry sentiu-se enjoado ao trazer a tona tais lembranças, balançou a cabeça e continuou caminhando.
Era estranho andar sem ser notado, no começo desviava das coisas depois percebeu que isso não era necessário, mas algumas vezes ainda se assuntava quando alguém vinha muito rápido em sua direção, por vezes se viu esperando o sinal fechar para atravessar a rua, no entanto quando tentou passar sem se preocupar, os carros passaram muito rápido por ele que sentiu-se tonto e assustado e correu até a calçada, parou do lado de um homem que por um instante pareceu poder vê-lo, pareceu que o olhava nos olhos, eram olhos azuis, mas não eram como os que já tinha visto. Esses eram antigos, não velhos só antigos cheios de vida, uma vida anormalmente longa, o homem era alto, estava com a barba mal feita e usava um sobretudo marrom, quando o sinal abriu para os pedestres o homem continuou o próprio caminho, como se       não tivesse visto nada.
Mesmo sem entender o porquê, acabou o seguindo, ele andou alguns quarteirões e quando Lerry começava a se perguntar se devia voltar o homem entrou em um hotel. Segui-o até o quarto e ficou a observá-lo. Sabia que não fazia sentido o que estava fazendo, mas desde que fora devorado por um monstro e virado uma espécie de fantasma passara a pouco se importar com o sentido das coisas. Quando o sujeito estava preparando-se para o banho Lerry sentiu-se desconfortável por ver outro homem despir-se, mas não pode deixar de notar o quanto o corpo dele estava coberto por tatuagens, a maioria pareciam muito antigas e estavam um pouco desbotadas, eram todos símbolos estranhos, alguns até conhecia, mas a maioria não. Foi para sala e esperou lá, depois de alguns minutos o telefone tocou, o homem atendeu e autorizou alguém a subir.
Menos de três minutos o visitante batia na porta, ainda enrolado na toalha o homem abriu a porta, no outro lado estava um sujeito bem arrumado, trajava um belo terno, por baixo uma camisa preta com um colarinho romano, provavelmente era padre ou algo do gênero, tinha o cabelo penteado para traz.
– Olá Piatã¹ – disse o visitante.
– Faz muito tempo desde que fui chamado assim.
– Sim, eu sei, mas sei também que você não mudou tanto durante esse tempo.
– O que você quer?
– Trazer o que você nos pediu.
– Eu não pedi nada. – disse Piatã desconfiado.
– Bem, isso é verdade, mas mesmo assim trouxe algo que você teria de nos pedir pois já não pode achar em outros lugares.
Eles se encaram por um tempo, Larry sentia-se assistindo um reality-show e nunca fora muito fã desse tipo de programa, mas algo nesses homens o deixava curioso.
– Tudo bem entre – disse Piatã dando passagem para o homem.
Ao entrar o visitante passou por entre Larry, e ao fazê-lo por um breve momento pareceu sentir algo, hesitou por um estante e depois seguiu, sentou-se em uma cadeira junto à mesa que estava na cozinha.
– Me chamo...
– Me mostre o que tem – disse Piatã o interrompendo.
O visitante sorrio, abriu a sacola que tinha no bolso e tirou três velas amareladas. Piatã olhou atentamente as velas segurou uma por um tempo nas mãos e falou:
– O que me impede de simplesmente matá-lo e ficar com elas?
– Gostaria de dizer que é seu caráter, mas obviamente você sabe que se fizer isso não terá acesso a outras. – disse o visitante sorrindo.
– Essas me darão muito tempo, posso pensar em uma solução – insistiu Piatã.
– Sim, mas após tantos séculos elas parecem queimar mais rápido não? Eventualmente você vira atrás de nós, e sabe muito bem que não nos esquecemos.
– Então me diga qual o preço?
– Essas já são suas, como prova de boa vontade.
– Como você mesmo me falou os conheço, e sempre tem um preço, me diga qual?
O visitante, pensou um momento, sorrio e disse:
– Essas são suas não se preocupe, considere um favor, e quem sabe nós começaremos uma amizade, você sabe que ainda somos os melhores fornecedores, não só para isso – disse apontando para as velas – para muitas outras coisas. O que acha Piatã
– Não me chame assim, esse nome faz parte do passado e não faz sentido aqui.
– Como devo chamá-lo então? Quem sabe o nome que usou para se registrar no hotel? James não é?
– Fale logo o que quer.
– Como havia dito antes, foi um presente – disse o homem levantando-se indo em direção a porta – creio que nos veremos novamente.
Antes de sair ele parou na porta olhou o recinto como se procura-se algo e disse:
– Pelo jeito não fui o único a lhe procurar não é mesmo, creio que você já sentiu a presença dele?
– Sim – disse James – olhando diretamente para Lerry – eu o percebi desde que começou a me seguir.
– Então sentiu a marca que ele carrega também.
– Sim.
Lerry estava atônito, não sabia como agir era óbvio que falavam dele, e aquele que tinha seguido definitivamente parecia vê-lo. No entanto não entendia o eles queriam dizer com “a marca que ele carrega”.
– Ele vai precisar de ajuda – disse o homem parado na porta.
– Você esta preocupado com isso?
– Não, esse é um problema seu. – disse fechando a porta atrás de si.
Ao chegar à rua o padre olhou em volta a procura de alguém, que surge sorrateiramente atrás dele, o assustando.
– Já disse para não fazer isso Abdias, você me assustou! – reclamou o padre.
– Você falou com ele?
­– Sim
– e então?
– Dei as velas a ele.
– Ele jurou lealdade?
– Óbvio que não.
– Então porque entregou as velas – reclamou Abdias irritado.
– Porque sou mais inteligente que você. Há muito tempo ele jurou lealdade e isso não o impediu de deixar nossa ordem. Ao mais, agora ele nos deve um favor e isso é o máximo que vamos conseguir dele.
– Mas se você já usou isso para fazê-lo destruir aquela coisa ele deixará de estar em débito conosco.
– Não precisei fazer isso, de alguma forma ele já está envolvido.
– O que garante que ele vai mesmo fazer isso?
– Nada, é mais um palpite do que uma certeza. De qualquer forma nós vamos até lá essa noite para averiguar. (...)

Continua

¹ nome de origem tupi, significa: forte, vigoroso.

domingo, 1 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...




1
Correr parecia tudo que podia fazer, ele estava com medo, tudo que lhe ensinaram tudo o que disseram é bobagem, agora ele sabe, só que agora é tarde de mais, então ele corre, sua mente sabe que deve continuar correndo, mas seu corpo não aceita essa verdade, sua pernas tremem o medo não ajuda, já não tem mais fôlego, a dor no abdômen é insuportável, ele sabe que sua vantagem é pequena e que se tem uma chance de escapar, ela depende de se manter correndo o mais rápido que puder. Mas seu corpo não esta mais obedecendo, ele se amaldiçoa pelo tempo perdido, pelas vezes que começou a ir a uma academia e desistiu, nunca pensou que precisaria tanto de um bom condicionamento físico, sempre leu muito e se considerava inteligente, achava que sabia das coisas e não precisava de exercícios, mas estava enganado, nada do que leu o preparou como achou que prepararia, pois o que o persegue não esta nos livros, não nos sérios. Ele se lembra de uma frase que ouviu na faculdade “o que a ciência não pode explicar ela nega porque não existe” talvez não fosse exatamente assim, mas o sentido era esse, no entanto como a ciência ira explicar o que ele viu? Como? Ele ri e isso tira ainda mais o fôlego, mas como não rir, por essa lógica da ciência ele estava prestes a ser morto por algo que não existe, e se não existe como poderia matá-lo? As pernas vacilam e ele cai, o ritmo já estava muito lento mesmo e correr já não iria adiantar. Ele senta olha nos bolsos ainda tem um cigarro, mas não tem isqueiro, nem fósforos, então coloca o cigarro apagado na boca, sempre disseram que o cigarro o mataria, e isso não deixava de ser irônico, sempre se imaginava morrendo com um cigarro na boca, mas nunca imaginou que quando chegasse à hora o cigarro estaria apagado. Lembrou de um artigo que leu sobre samurais, e de como eles morriam com dignidade, na época achou que era exagero e ainda acha, mas mesmo assim tentaria fazer o mesmo e morrer com um pouco de dignidade.
Começou a esboçar um sorriso, meio de canto um sorriso cujo qual acreditava que lhe auferia uma aparência mais sarcástica e mais heróica, se era pra morrer, estava decidido, não gritaria, não iria implorar, mostraria que era feito de uma fibra mais forte, mostraria coragem digna de um herói. Gostaria de ter um isqueiro pra acender o cigarro, mas o que mais queria era a arma que guardava em casa, no fundo falso do armário, não precisa estar totalmente carregada, sabia que aquela monstruosidade não seria morta por simples balas, queria só uma. Esperaria até o ultimo momento e usaria a bala nele mesmo, só para tirar o gostinho de vitória do monstro, sentia-se mais corajoso sentia que podia enfrentar o próprio destino de peito aberto, mas ainda se lamentava pelo cigarro apagado.
Quando a “coisa” entrou em seu campo de visão manteve a determinação e o sorriso com ela, mas o nervosismo era crescente, tentou tragar o cigarro só então lembrou que estava apagado. A “coisa” chegou mais perto, tinha cheiro de cadáveres em decomposição, e sua coragem falhou, a determinação se foi, o cigarro caiu da boca ele tentou levantar e correr, mas pernas não obedeceram, já não importava mais a dignidade, ninguém iria ver se ele era corajoso, não havia ninguém ali e ele até desejou que tivesse, porque então não precisava ser mais rápido que o monstro só mais rápido que a outra pessoa, mas não havia ninguém ele estava sozinho, e com medo, agora estava com muito medo, sabia que ia morrer desde que começou a correr, mas só agora entendia isso de verdade, só agora estava ciente, que sua vida tudo o que batalhou e conquistou, o emprego o carro as mulheres que se esforçou pra conquistar, que tudo isso tinha sido em vão, pois estava prestes a morrer no escuro sozinho, com medo e com as calças molhadas, provavelmente devorado por algo que nem mesmo entendia, entrou em pânico e gritou.
Morreu gritando em desespero, mas não doeu tanto quanto tinha pensado que doeria, fechou os olhos porque não suportava olhar, e continuou gritando.
– Cara você já pode parar de gritar! – alguém lhe falou. Primeiramente achou que era o monstro, mas não podia ser, abriu os olhos e pode ver seu corpo sendo devorado, pelo monstro, e só então percebeu que estava de pé, olhou as mãos elas estavam semitransparentes, olhou novamente e seu corpo já tinha sido praticamente todo devorado. Olhou em volta havia outra pessoa semitransparente ao seu lado. Sentiu vergonha pelos gritos, imaginou se ainda podia ficar vermelho agora que estava morto, “se ao menos o cigarro estivesse aceso não teria dado esse vexame” pensou. Parecia redundante, mas mesmo assim perguntou:
– Estou morto?
– Sim eu acho que estamos sim... Chamo-me Robert ou me chamava, as coisas estão um pouco confusas, qual seu nome?
– Lerry, ele o devorou também?
– Sim, depois de mim com você já são três que vejo serem devorados. Não se preocupe todos gritaram, mas você é o que está reagindo melhor, os outros não queriam acreditar.
– Onde eles estão?
– Não sei, um disse que ia para casa, que isso era uma ilusão, outro simplesmente saiu correndo, o anterior a você disse que iria procurar “a luz”, talvez ache que vai para o céu ou algo do tipo – o fantasma em sua frente emboçou um sorriso ao falar isso e continuou – não sei se existe um céu, mas se existir isso provavelmente não veio de lá – disse apontando pra a monstruosidade.
– Você sabe o que é isso? ­– Lerry perguntou.
– Não, mas o estou observando desde que ele me pegou, acho que é um tipo de demônio, eu o tenho seguido, ele sempre ataca aqui por perto, e até então escolhe só os homens. Quando quer ele pode se camuflar muito bem, uma mulher passou perto bem perto, mas ele não ligou. No entanto os homens é outra história, contando comigo foram quatro que ele pegou e até onde sei nós fomos os únicos a passar por aqui nos últimos três dias e todos fomos mortos.
– Em três dias só cinco pessoas passaram por aqui? Tudo bem que esta é uma cidade pequena, no entanto essa estrada não é tão pouco movimentada assim. – interpelou Lerry.
– Isso sim, mas ele só ataca a noite e apesar de perseguir pela estrada, só ataca aqueles que cortam caminho por aquele terreno baldio – disse Robert apontando para o fim da rua e Lerry lembrou-se do terreno que tinha usado para cortar caminho. – é que acabam sendo devorados.
– Por que você o esta seguindo?
– Tentar descobrir o que ele é eu acho, não que isso faça muita diferença agora, mas não tenho nada melhor a fazer.
– Você não tem família?
– Tenho, mas moram em outro país, e não sei se gostaria de vê-los agora. E você?
– Há muito tempo eu tive – disse Lerry – talvez reencontre alguém agora, o que você acha?
– Pode ser, afinal estamos conversando, mas talvez tenha problema para achá-los. Olhe – disse Robert apontando para o monstro – ele terminou.
Lerry, não soube direito o que sentir, afinal era ele que tinha acabado de ser devorado.
– A onde ele vai agora?
– De volta para o terreno, você vem comigo?
Lerry acenou com a cabeça e juntos seguiram o monstro, ao chegar ao terreno baldio o monstro encostou-se em um muro que fazia divisa com outro terreno, ali ele lentamente foi praticamente desaparecendo.
– Não falei que ele se camuflava muito bem – disse Robert.
– E agora? – Perguntou Lerry
– Como assim?
– O que a gente faz?
– Espera! – disse Robert sem muita certeza, e eles esperaram, Lerry percebeu que não cansava podia ficar em pé o tempo que fosse, mas ainda se entediava, e quando sol começou a nascer ele disse:
– Vou andar um pouco, você mesmo disse que ele não faz nada durante o dia.
– Você que sabe.
– Não vens?
– Não, vou ficar aqui, não vou perdê-lo de vista.
– Antes de escurecer eu volto – disse Lerry em tom de desculpa.
Robert abanou a cabeça em consentimento, e ficou ali olhando para o lugar onde se encontrava a criatura.

Continua....