domingo, 1 de julho de 2012

Porque ser imortal é como morrer todos os dias...




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Correr parecia tudo que podia fazer, ele estava com medo, tudo que lhe ensinaram tudo o que disseram é bobagem, agora ele sabe, só que agora é tarde de mais, então ele corre, sua mente sabe que deve continuar correndo, mas seu corpo não aceita essa verdade, sua pernas tremem o medo não ajuda, já não tem mais fôlego, a dor no abdômen é insuportável, ele sabe que sua vantagem é pequena e que se tem uma chance de escapar, ela depende de se manter correndo o mais rápido que puder. Mas seu corpo não esta mais obedecendo, ele se amaldiçoa pelo tempo perdido, pelas vezes que começou a ir a uma academia e desistiu, nunca pensou que precisaria tanto de um bom condicionamento físico, sempre leu muito e se considerava inteligente, achava que sabia das coisas e não precisava de exercícios, mas estava enganado, nada do que leu o preparou como achou que prepararia, pois o que o persegue não esta nos livros, não nos sérios. Ele se lembra de uma frase que ouviu na faculdade “o que a ciência não pode explicar ela nega porque não existe” talvez não fosse exatamente assim, mas o sentido era esse, no entanto como a ciência ira explicar o que ele viu? Como? Ele ri e isso tira ainda mais o fôlego, mas como não rir, por essa lógica da ciência ele estava prestes a ser morto por algo que não existe, e se não existe como poderia matá-lo? As pernas vacilam e ele cai, o ritmo já estava muito lento mesmo e correr já não iria adiantar. Ele senta olha nos bolsos ainda tem um cigarro, mas não tem isqueiro, nem fósforos, então coloca o cigarro apagado na boca, sempre disseram que o cigarro o mataria, e isso não deixava de ser irônico, sempre se imaginava morrendo com um cigarro na boca, mas nunca imaginou que quando chegasse à hora o cigarro estaria apagado. Lembrou de um artigo que leu sobre samurais, e de como eles morriam com dignidade, na época achou que era exagero e ainda acha, mas mesmo assim tentaria fazer o mesmo e morrer com um pouco de dignidade.
Começou a esboçar um sorriso, meio de canto um sorriso cujo qual acreditava que lhe auferia uma aparência mais sarcástica e mais heróica, se era pra morrer, estava decidido, não gritaria, não iria implorar, mostraria que era feito de uma fibra mais forte, mostraria coragem digna de um herói. Gostaria de ter um isqueiro pra acender o cigarro, mas o que mais queria era a arma que guardava em casa, no fundo falso do armário, não precisa estar totalmente carregada, sabia que aquela monstruosidade não seria morta por simples balas, queria só uma. Esperaria até o ultimo momento e usaria a bala nele mesmo, só para tirar o gostinho de vitória do monstro, sentia-se mais corajoso sentia que podia enfrentar o próprio destino de peito aberto, mas ainda se lamentava pelo cigarro apagado.
Quando a “coisa” entrou em seu campo de visão manteve a determinação e o sorriso com ela, mas o nervosismo era crescente, tentou tragar o cigarro só então lembrou que estava apagado. A “coisa” chegou mais perto, tinha cheiro de cadáveres em decomposição, e sua coragem falhou, a determinação se foi, o cigarro caiu da boca ele tentou levantar e correr, mas pernas não obedeceram, já não importava mais a dignidade, ninguém iria ver se ele era corajoso, não havia ninguém ali e ele até desejou que tivesse, porque então não precisava ser mais rápido que o monstro só mais rápido que a outra pessoa, mas não havia ninguém ele estava sozinho, e com medo, agora estava com muito medo, sabia que ia morrer desde que começou a correr, mas só agora entendia isso de verdade, só agora estava ciente, que sua vida tudo o que batalhou e conquistou, o emprego o carro as mulheres que se esforçou pra conquistar, que tudo isso tinha sido em vão, pois estava prestes a morrer no escuro sozinho, com medo e com as calças molhadas, provavelmente devorado por algo que nem mesmo entendia, entrou em pânico e gritou.
Morreu gritando em desespero, mas não doeu tanto quanto tinha pensado que doeria, fechou os olhos porque não suportava olhar, e continuou gritando.
– Cara você já pode parar de gritar! – alguém lhe falou. Primeiramente achou que era o monstro, mas não podia ser, abriu os olhos e pode ver seu corpo sendo devorado, pelo monstro, e só então percebeu que estava de pé, olhou as mãos elas estavam semitransparentes, olhou novamente e seu corpo já tinha sido praticamente todo devorado. Olhou em volta havia outra pessoa semitransparente ao seu lado. Sentiu vergonha pelos gritos, imaginou se ainda podia ficar vermelho agora que estava morto, “se ao menos o cigarro estivesse aceso não teria dado esse vexame” pensou. Parecia redundante, mas mesmo assim perguntou:
– Estou morto?
– Sim eu acho que estamos sim... Chamo-me Robert ou me chamava, as coisas estão um pouco confusas, qual seu nome?
– Lerry, ele o devorou também?
– Sim, depois de mim com você já são três que vejo serem devorados. Não se preocupe todos gritaram, mas você é o que está reagindo melhor, os outros não queriam acreditar.
– Onde eles estão?
– Não sei, um disse que ia para casa, que isso era uma ilusão, outro simplesmente saiu correndo, o anterior a você disse que iria procurar “a luz”, talvez ache que vai para o céu ou algo do tipo – o fantasma em sua frente emboçou um sorriso ao falar isso e continuou – não sei se existe um céu, mas se existir isso provavelmente não veio de lá – disse apontando pra a monstruosidade.
– Você sabe o que é isso? ­– Lerry perguntou.
– Não, mas o estou observando desde que ele me pegou, acho que é um tipo de demônio, eu o tenho seguido, ele sempre ataca aqui por perto, e até então escolhe só os homens. Quando quer ele pode se camuflar muito bem, uma mulher passou perto bem perto, mas ele não ligou. No entanto os homens é outra história, contando comigo foram quatro que ele pegou e até onde sei nós fomos os únicos a passar por aqui nos últimos três dias e todos fomos mortos.
– Em três dias só cinco pessoas passaram por aqui? Tudo bem que esta é uma cidade pequena, no entanto essa estrada não é tão pouco movimentada assim. – interpelou Lerry.
– Isso sim, mas ele só ataca a noite e apesar de perseguir pela estrada, só ataca aqueles que cortam caminho por aquele terreno baldio – disse Robert apontando para o fim da rua e Lerry lembrou-se do terreno que tinha usado para cortar caminho. – é que acabam sendo devorados.
– Por que você o esta seguindo?
– Tentar descobrir o que ele é eu acho, não que isso faça muita diferença agora, mas não tenho nada melhor a fazer.
– Você não tem família?
– Tenho, mas moram em outro país, e não sei se gostaria de vê-los agora. E você?
– Há muito tempo eu tive – disse Lerry – talvez reencontre alguém agora, o que você acha?
– Pode ser, afinal estamos conversando, mas talvez tenha problema para achá-los. Olhe – disse Robert apontando para o monstro – ele terminou.
Lerry, não soube direito o que sentir, afinal era ele que tinha acabado de ser devorado.
– A onde ele vai agora?
– De volta para o terreno, você vem comigo?
Lerry acenou com a cabeça e juntos seguiram o monstro, ao chegar ao terreno baldio o monstro encostou-se em um muro que fazia divisa com outro terreno, ali ele lentamente foi praticamente desaparecendo.
– Não falei que ele se camuflava muito bem – disse Robert.
– E agora? – Perguntou Lerry
– Como assim?
– O que a gente faz?
– Espera! – disse Robert sem muita certeza, e eles esperaram, Lerry percebeu que não cansava podia ficar em pé o tempo que fosse, mas ainda se entediava, e quando sol começou a nascer ele disse:
– Vou andar um pouco, você mesmo disse que ele não faz nada durante o dia.
– Você que sabe.
– Não vens?
– Não, vou ficar aqui, não vou perdê-lo de vista.
– Antes de escurecer eu volto – disse Lerry em tom de desculpa.
Robert abanou a cabeça em consentimento, e ficou ali olhando para o lugar onde se encontrava a criatura.

Continua....

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