segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Para sempre... por simples vaidade!



...Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar...

... Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade...
(Raul Seixas)


SÁKURA
Me chamo Sakura, mas apesar do meu nome ter origem no Japão, sou nascida no Brasil e minha descendência é européia, italiana e alemã eu acho, meu pai sempre foi fã da cultura japonesa, por isso tenho esse nome. Não que não goste não me interprete mal eu o adoro é diferente, bonito, é o nome de uma flor.
Meu pai me chamava de minha flor, e eu adorava, eu tinha uma relação muito forte com ele. Acabei também uma fã de cultura oriental, principalmente mangás e animes, e fui em vários eventos de cosplay, achava que encontraria alguém por lá, alguém que me entende-se, na verdade estava sempre procurando alguém, sempre tentando ser entendida, mas isso não acontecia, talvez fosse eu que estivesse fechada, ou talvez ele não estivesse por lá mesmo, quem sabe?
Não posso falar que na escola era uma garota totalmente deslocada, nem totalmente enturmada essas pessoas são sempre notadas, muitas vezes me achava um pouco invisível sabe, não sofria com gozações e nem era popular, simplesmente estava lá e só.
Fiquei com alguns garotos nessa época, em meus diários falava de paixões com os garotos mais populares mas eles eram distantes para mim. Não que fosse feia, só não era notada, e também não me fazia notar. À medida que fui crescendo, alguns daqueles garotos começaram a me procurar, sempre pensei nisso e acho que eles acreditavam que teriam sexo fácil. No entanto já era tarde, minha cabeça tinha mudado e rostos bonitos não eram suficientes.
Meu gosto musical é outra influencia de meu pai, ele ouvia muito blues e rock and roll, acabei percorrendo um caminho parecido, e por consequência os ambientes que frequento não são lugares de muita dança, em geral as pessoas sentam conversam ouvem música e bebem. Tenho alguns amigos com quem sempre vou a esses lugares, mas naquele dia acabei saindo com uma amiga recente da faculdade, fomos a um bar da preferência dela, já tinha ido lá outras vezes, mas foram poucas. Sentamos com alguns amigos dela, pegamos uma mesa perto do canto ao todo éramos cinco três garotas e dois rapazes, eram pessoas legais e a conversa fluía bem, não precisou muitas cervejas para que um dos meninos começasse a me sondar, e logo dar em cima mesmo, admito não freei a situação, ele era bonitinho e fazia bem ao meu ego ver ele se empenhando em me agradar, Não tinha realmente intenção de ficar com ele, mas as outras meninas pareciam não se importar e a situação era confortável, não era tão diferente do normal.
Estava sentada de modo que podia ver quando as pessoas entravam, foi quando o vi. O percebi quando entrou, era bonito, e usava camisa do Nirvana e uma camiseta xadrez por cima, calçava um all star, houve um tempo em que era fascinada por meninos que se vestiam assim, hoje em dia vejo muitos e já não me fascino tanto, mas admito que tem seu charme. Ele cumprimentou algumas pessoas no balcão e depois veio em nossa direção, era amigo das pessoas que sentavam comigo. Fomos apresentados, chamava-se Pedro, apertou minha mão e me beijo o rosto, como é de costume. Tinha um olhar de menino meio inocente, que fazia um contraste interessante com seu sorriso, que era meio de lado e tinha um que de mistério.
Não demorou muito até que estivéssemos em um diálogo só nos dois, tínhamos muito em comum e era fácil falar com ele, fácil demais. O garoto que a principio estava interessado em mim desistiu, e de dois em dois nossos amigos foram se despedindo e saindo. Me vi sozinha com ele na mesa falando sobre mim, contando coisas que nunca tinha contado nem para meus namorados, era fácil se abrir com ele e foi inevitável entrar no assunto relacionamentos falamos de alguns do passado tanto eu quanto ele.
– Você tem namorado? – Me perguntou.
– Não – respondi com um sorriso que saiu sem querer ­– e você?
– Estou ficando com uma menina ­– contou sem sorrir quase em tom de desculpa, minha expressão deve ter deixado escapar decepção, por que ele sorriu um sorriso triste e falou: ­– mas não sei, as coisas não estão muito bem, ela é legal sabe na real uma pessoa e tanto, mas não sei, a verdade que não me entendo e fico cada vez mais confuso, cada vez mais apertado! Você já se sentiu apertada? – ele não esperou eu responder e percebi que ele estava se justificando, mas não para mim e sim para si próprio ­– ­Não por alguém, mas por você, por sentimentos fortes, os quais você não entende?  Você já se sentiu vulnerável mesmo atrás daquele enorme muro que construiu em volta de seu peito? Você já sentiu que deveria sentir mais do que sente? – olhou em meus olhos e parecia perdido, não respondi ele não precisava ouvir nada só ser ouvido – Eu não queria, mas todo esse sentimento arde, machuca, e me pergunto por que machuca se não encontro dentro de mim aquilo que gostaria de sentir? –baixou os olhos como que envergonhado ­– Mas ainda assim arde e queima como uma queimadura química, daquelas que não adianta jogar água porque só piora, ai você sabe que tem que jogar vinagre, mas não pode porque vinagre não esta certo, sua mãe te ensinou: “quando queimar joga água”, só que nesse caso piora... e então só então você percebe que não está preparado, que ninguém te ensinou a coisa certa... e todos aqueles anos na escola de repente parecem perdidos, só que o mais terrível é quando você compreende que não são aqueles olhos fitando os seus, não é aquele riso fácil, nem aquele gosto bom, não é aquele alguém que cabe em seus abraços, na verdade são seus olhos refletidos nos dela, é o motivo daquele sorriso, é o seu abraço, é algo quebrado dentro de você.
Eu não sei se entendi bem tudo o que ele falou, em casa pensei mais sobre o assunto mas não muito. A partir daquele ponto, nossa conversa já não fluiu tão bem, ele perguntou se eu queria companhia até em casa, eu respondi que não que morava perto, ele pareceu aliviado.
Passou quase um ano até que o visse novamente, foi em show de uma banda de amigos que tínhamos em comum, acabamos conversando novamente parecíamos amigos de longa data, eu bebi algumas cervejas e ele também o álcool nos destravou um pouco e acabei perguntando:
– E sua namorada? Como vão as coisas?
– Depois daquele dia nós não ficamos mais, conversei com ela não foi agradável, mas até onde é possível somos amigos.
Conversamos mais sobre outros assuntos, mas não demorou até que me beijasse não foi um beijo roubado e nem foi nada parecido com aqueles de cinema onde ambos parecem se derreter em paixão, mas foi gostoso, tinha gosto de canela. Antes do show acabar ele pegou meu telefone e disse que ligaria, admito que não acreditei muito na hora mas no fundo estava torcendo para que isso fosse verdade.
Durante a semana ele me ligou convidou para sair na sexta, eu topei e na sexta-feira fomos a um barzinho que tocava musica ao vivo, o cantor tinha um repertório bem interessante de Raul, Cazuza e Zé ramalho, na verdade era bem agradável. Quando o lugar estava quase vazio ele me convidou para ir na casa dele eu aceitei e naquela noite transamos. Não foi como em filmes nem como naqueles romances de bolso, nossos corpos não deslizavam como se estivessem cheios de manteiga, eu sentia bem a pele dele e o ar entre os nossos corpos fez um barulho engraçado, nas telas as pessoas não falam muito nessas horas, a gente falou, riu e ele me chamou de minha flor. Foi gostoso como poucas vezes tinha sido para mim.
SOFIA
Me chamo Sofia, e apesar de ser brasileira poderia morar no Japão e passar facilmente por uma japonesa, a não ser pelo sotaque, meu japonês carrega um forte sotaque, para os brasileiros que falam japonês ele é perfeito mas minha mãe sempre diz que ainda tenho muito sotaque assim como meu pai. Minha mãe é japonesa e meu pai brasileiro, mas de descendência nipônica ambos são médicos e se conheceram em uma conferencia de medicina nos EUA. Eles casaram e por algum motivo preferiram morar aqui no Brasil, não posso reclamar, já visitei algumas vezes meus avós no Japão e gosto mais daqui das pessoas aqui, não sei, talvez seja pelo jeito como se abraçam e se tocam, no oriente as coisas são bem mais formais.
Minha mãe carrega muito de sua cultura, e ainda mesmo que imperceptível torce o nariz quando tem de apertar a mão de alguém. Meu pai é justamente ao contrario, é uma pessoa de toque fácil, extremamente carinhoso. Dizem que quem vive abraçando e tocando as pessoas é assim, por ser carente. Eu penso o contrario, penso que quem esta sempre tocando e abraçando, é porque teve muito carinho, porque tem boas lembranças de como é bom o carinho e esta sempre revivendo essas lembranças quando toca alguém mesmo que inconscientemente. Já aqueles que evitam muito tocar, não gostam de abraçar, que vivem criticando as pessoas de toque fácil, é justamente essas que acredito serem carentes, pois, elas não têm boas lembranças de carinho e se assustam quando alguém se aproxima demais.
Estou fazendo medicina, serei médica como os meus pais, isso os deixou orgulhosos é claro, e bem felizes também, eu também estou feliz principalmente por saber que eles estão orgulhosos. Sempre me dediquei para deixá-los orgulhosos, na escola era sempre uma das melhores alunas, não era a mais popular, mas estava entre elas, sempre senti que estava fazendo as coisas certas, sempre senti o orgulho da minha família. Só que às vezes me sentia vazia.
Na escola não fiquei com muitos garotos, na verdade com bem poucos, namorei muitos anos, eu gostava dele e meus pais também, “esse é um garoto de futuro dizia meu pai”. Eu não sei por que ele terminou, mas admito que não fiquei triste, mas ainda me sinto culpada por isso. Eu o vejo muito na faculdade ele faz Direito, ainda conversamos como amigos, mas nunca ouve uma recaída nem uma noite nem sequer um beijo.
Não sou de sair, a faculdade consome muito tempo, mas naquela tarde a aula terminou mais cedo e umas garotas da minha sala me convenceram a ir a um barzinho a noite, pensei que seria bom descansar um pouco a mente.
Éramos quatro garotas em uma mesa, e é claro que vários meninos vieram puxar assunto com a gente, com alguns conversamos um pouco, outros despachávamos sem que pronunciassem mais que duas palavras, mas não deixávamos que nem um sentasse com a gente. Estávamos sendo um pouco arrogantes eu admito, mas éramos de medicina e como elas diziam: “temos que ser difíceis”. Por mim tudo bem, não estava a fim de conhecer ninguém, não tinha vontade alguma de me envolver.
Quando dois meninos se aproximaram, sabia que seria como todas as outras vezes e fingi que não os tinha visto. Eles perguntaram nossos nomes e uma das meninas respondeu. Pensei que estes seriam daqueles que não passariam das duas palavras, mas quando meu nome foi dito, o que estava com uma camisa de banda falou:
– É uma grande responsabilidade carregar um nome que significa sabedoria, me diga você é sábia?
Não devia, mas sorri.
­– “Só sei que nada sei” ­– respondi.
– Uma garota que conhece Sócrates – disse ele sorrindo e puxando uma cadeira, sentou-se ao meu lado sem dar muita atenção aos protestos da outras garotas. Não devia, mas continuei sorrindo.
– Me chamo Pedro, claro que não é um nome tão imponente como o seu, mas eu até que gosto. ­– ele pegou em minha mão com uma naturalidade que gostei, tinhas as mãos quentes. Tinha o olhar misterioso, diria que até um pouco cafajeste, mas o sorriso parecia sincero. Conversamos muito aquela noite, quando dei por conta estávamos sós na mesa, não percebi as garotas saindo.
Não era muito tarde quando ele me convidou para andar, eu aceitei. Caminhamos e conversamos, eu já estava ansiosa esperando o beijo, achava que ele não faria e quando começava a pensar que seria melhor assim, ele me beijou. Acabamos na casa dele que na verdade era uma kitinete, nunca tinha feito isso, não na primeira vez, mas transamos, foi bom como nunca tinha sido com meu namorado.
Acabamos caindo no sono quando acordei já era dia, fiquei grata por estudar longe de casa e não morar com meus pais, não saberia explicar. Ao acordar ele sorriu e falou:
– Agora posso falar que sou filosofo.
– Mas você ainda não concluiu a faculdade filosofia – protestei
– Sim eu sei, mas Filosofia vem do grego amigo, ou amante da sabedoria, agora eu também sou um a amante da sabedoria hahahahaha! – ele riu alto uma gargalhada gostosa, eu ri junto, não por achar engraçado, na verdade achei meio bobo, mas me fazia bem vê-lo rindo.

SÁKURA
Eu e Pedro começamos a sair nada de muito compromisso, às vezes ele me ligava às vezes eu ligava, estava bom, mas eu não sei, quando naquele dia ele começou a falar tinha uma expressão diferente eu não tinha certeza sobre o que era.
– Não gosto de mentiras e não vou mentir, não para você! Eu sai com outra garota ­– disse ele, tinha o olhar perdido e isso era o pior de tudo.
­– Como assim? – perguntei, mas eu sabia como, a expressão em seu rosto dizia tudo. 
– É eu fiquei com outra garota – Não tínhamos compromisso nem um, mas mesmo assim isso machucou bastante, não sei explicar direito me senti traída.
Ele continuava me olhando, meio perdido e eu não conseguia sentir raiva dele, talvez tenha sentido um pouco da garota mesmo sabendo que talvez ela não tivesse culpa nem uma.
­– Não estamos namorando, não temos compromisso, você pode fazer o que quiser... ­– segurei o choro melhor que pude, não o deixaria me ver assim, tão desarmada, tão frágil.
– Eu sei que não usamos palavras para isso, mas gestos podem ser tão fortes como promessas, e nós, nossa relação era quase como que um namoro, mas você está certa não temos compromisso. No entanto, minhas ações, suas ações, tornam o não dito em promessa, é o que sinto, e é exatamente por isso que te falo, por isso que estou sendo sincero. Não sinto que te trai, justamente por não termos compromisso, mas me sentiria te traindo se não contasse.
– Eu entendo, eu acho... – já não sabia o que falar, nem o que sentir – por quê? – eu tinha que saber.
– Não sei se saberia dizer um porque, talvez eu precisasse, talvez estivesse com medo da nossa relação, eu não tenho certeza.
– Por que você quis! – conclui.
– Sim eu quis sim, ou então não teria feito.
– Gosta dela?
– Eu gosto de você, eu estou aqui não estou? Eu quero estar com você! ­– Disse me olhando nos olhos, e eu acreditei ou quis acreditar, não sei ao certo, mas ele não respondeu e eu não insisti. Ficamos juntos aquela noite, eu estava com medo, e estava odiando sentir esse medo. Medo de ficar longe de perder.

SOFIA
Depois daquela noite Pedro e eu começamos a conversar muito, saímos mais algumas vezes e já começava a pensar em nós como um namoro, mesmo que não tenhamos assumido compromisso algum.
Eu não estava preparada, como poderia estar? Quando percebi que o olhar dele estava triste fiquei apreensiva.
– Uma semana antes de te conhecer eu fiquei com outra menina, na verdade ainda tenho ficado com ela. – Eu realmente não estava preparada, e não senti nada a principio só sorri.
– Você esta saindo com nos duas ao mesmo tempo? ­– Eu sabia a resposta, mas precisa ouvir da boca dele.
– De certa forma sim, mas não é bem assim, não é como se estive querendo enganar ninguém, só deixei as coisas acontecerem.
– Por que não me contou antes? – Isso eu realmente queria saber.
– Não tinha porque contar, saímos poucas vezes não sabia o que esperar, não tinha certeza se continuaríamos ficando. Ela já sabe de você, eu não quero mentiras, acho que devo no mínimo sinceridade. – Não sabia o que falar, não conseguia olhá-lo nos olhos. – Você está bem?
– Eu não sei, eu estou confusa, magoada eu acho. Não sei mais quem é você.
– Você algum dia soube quem eu sou?
­– Acho que não, eu imaginei você de um jeito... – não sei se o que mais doeu foi ele estar ficando com outra garota, ou então não ser quem eu imaginava, talvez fosse tudo a mesma coisa. – Você está me falando que existe outra garota e eu sei que a gente não tem nada, nenhum compromisso, mas estou com ciúmes.               
– Eu sentiria também.
– Eu não queria dividir você, quero que seja só meu.
– Como uma propriedade?
– Não, você sabe que não é disso que estou falando eu só não queria dividir você com outra pessoa.     
– Eu não queria isso, não mesmo – ele parecia sincero.
– O que você sente por ela?              
– Antes me diga é mais importante o que sinto por ela ou por você?
– Por mim! – Claro que era por mim.
– Sabe na verdade não sei direito o que sinto, achei que soubesse, mas me machuca mais do que pensava ver a decepção em seus olhos, eu gosto de você, mas não tinha noção que era tão importante, estou confuso me sinto como um adolescente.
– O que você quer de mim? – Perguntei.
– Você, quero estar com você, ficar com você! – O olhar tinha voltado, aquele olhar de canto, meio misterioso meio cafajeste que me desarmava. Não podia ter me enganado tanto, ele não podia ser tão diferente do que tinha se mostrado até então. Passamos aquela noite juntos, não queria perde-lo, pela primeira vez em minha vida tinha medo de perder alguém.

SÁKURA
Já se passavam alguns dias que não via Pedro, e ainda estava perdida, sentia que ele me escapava por entre os dedos, ele não era meu. Eu sempre soube disso, mas agora era diferente era verdade, ele tinha me dito, e eu estava com raiva de mim, porque agora se eu me machucasse a culpa era minha. Ele tinha sido cruel em ter passado a responsabilidade para mim, e eu estava com raiva porque ainda o queria.
Continuava a fazer minhas coisas, mas era tudo tão superficial agora, tão distante. Sempre que fechava meus olhos podia ver o sorriso dele, aquele sorriso que já considerava tão meu. Quanto mais pensava mais difícil se tornava a ideia de ter de dividi-lo.
Tinham se passado três quartos de hora do meio dia quando entrei na lanchonete da faculdade, não esperava encontrá-la tão cheia todas as mesas estavam ocupadas. Perto da porta estava sentada sozinha uma garota, simpatizei com ela, parecia ser japonesa e sempre fui fascinada por cultura oriental.
– Posso me sentar? – perguntei.
– Pode. – disse ela sem animo, era óbvio que não falaria japonês, mas admito ter ficado um pouco decepcionada por ela ter respondido em português. Quando sentei ela me olhou nos olhos, o olhar era triste. Ela esboçou um sorriso meio desanimado, e quando sorri de volta não devo ter demonstrado um animo muito maior.
– Como é seu nome? – ela me perguntou.
– Sákura – respondi sem dar muita ênfase, na verdade não estava muito a fim de conversa.
– Um nome incomum para uma brasileira – disse ela sem olhar para mim, sem muita emoção, como que se falasse para si própria.
– É eu sei – respondi – e o seu?­ – perguntei por impulso.
– Sofia – o nome era bonito, alguém já tinha me dito o significado, mas não tinha certeza.
– Significa sabedoria não?
– Sim – e um sorriso lhe veio aos lábios quando respondeu.
– O seu nome me lembra o garoto com quem estou ficando, ele faz Filosofia. – não sei por que falei isso simplesmente saiu. Ela me olhou nos olhos por uns momentos, e quando falou parecia menos triste.
– Engraçado, o garoto que estou ficando também. ­– não foi necessário mais nem uma palavra, sabia que estávamos falando do mesmo garoto.
Começamos a conversar com muito mais vontade a partir daquele momento, queiramos conhecer uma a outra, era um sentimento mutuo então falamos muito sobre nós mesmas e quando dei por mim já era de noite. Nesse momento já sabia muito da vida dela, e por mais que não quisesse começava a gostar dela.
Foi ela quem começou a falar dele, e falamos muito sobre de como gostávamos de coisas diferentes na mesma pessoa, não a odiava por gostar dele, na verdade entendia afinal eu também gostava. Falamos muito ainda antes de eu dar a ideia de encontrarmos ambas com ele, ela ponderou o assunto, e sorriu.
– E por que não? ­– disse ela – Vai ser bem interessante! – Eu também achava.

SOFIA
Já se passavam cindo dias desde a ultima vez que tinha visto Pedro, eu não o procurei nem ele a mim, estava mal com tudo, com o que ele tinha me falado, com o fato dele ter ficado com outra garota, teria entendido se fossem outras garotas eu acho, seria uma necessidade física, mas uma garota não. Isso significava envolvimento emocional e eu não podia aceitar. No entanto ainda não conseguia pensar em ficar definitivamente longe dele, eu o queria, por mais que achasse que não devia eu o queria. Nas aulas perdia facilmente a concentração, e nessas horas minha mente sempre evocava o olhar dele, como eu gostava daqueles olhos que já considerava tão meus.
Já tinha passado de meio dia e meio quando entrei na lanchonete da faculdade para almoçar, estava praticamente lotada, só restava uma mesa vaga perto da porta, sentei-me lá torcendo para que ninguém se juntasse a mim, eu devia mesmo estar com cara de poucos amigos, pois os poucos que chegavam perto da mesa desistiam antes de sentar-se. Estava decidindo se ligava ou não para ele, não queria ser eu a dar o braço a torcer, mas tinha a impressão que se não ligasse ele também não ligaria, estava com medo de não poder olhar novamente naqueles olhos, porém tinha medo também do que veria refletido neles.
Eu vi a menina se aproximar, não precisei olhar diretamente para perceber isso, achei que ela seria como os outros que desistiria antes de sentar, mas não.
– Posso me sentar? – perguntou ela.
– Pode. – respondi sem animo, queria ter dito não, mas achei que ela acabaria procurando outra mesa. Não estava para amigos, mas quando ela sentou eu sorri não deve ter sido um sorriso muito animado, porque o sorriso que ela devolveu não era muito feliz, ou talvez ela realmente não estivesse bem, e por mais que pareça sádico, isso fez com que me sentisse um pouco melhor.
– Como é seu nome? – perguntei.
– Sákura – ela respondeu ainda mais desanimada, não parecia a fim de conversa, não tinha dúvidas ela estava realmente triste. Mas o nome dela chamou minha atenção, era um nome japonês bem incomum no Brasil.
– Um nome incomum para uma brasileira – deixei escapar foi mais um tipo de pensamento alto não queria realmente incentivar uma conversa.
– É eu sei – ela respondeu – e o seu?­ – me perguntou.
– Sofia – tive de responder, o diálogo tinha começado e eu já estava pensando em me levantar quando ela me perguntou:
– Significa sabedoria não?
– Sim – eu respondi com um sorriso no rosto, não pude evitar, pois isso me lembrou o dia em que o conheci.
– O seu nome me lembra o garoto com quem estou ficando, ele faz Filosofia. – ela falou, não precisa de mais explicações sabia que se tratava de Pedro, a olhei nos olhos alguns instantes antes de falar.
– Engraçado, o garoto que estou ficando também. ­– pude ver a compreensão surgir nos olhos dela.
A conversa fluiu de uma maneira estranha, isso provavelmente aconteceu porque ambas buscávamos nos conhecer melhor, tentávamos entender o porquê dele ter se interessado por outra garota. Acabei sabendo mais coisas sobre ela do que sei sobre amigas de longa data, e por conseqüência ela de mim. Achava que a odiaria se a conhecesse, mas isso não aconteceu na verdade foi ao contraria gostei dela, afinal não podia culpá-la por sentir algo parecido pelo mesmo garoto que eu. Na verdade foi interessante descobrir que gostávamos de coisas bem diferentes na mesma pessoa.
Quando percebi já era noite, e foi eu quem começou a falar dele, e falamos bastante sobre o assunto, no entanto foi ela quem deu a ideia de encontrarmos ambas com ele. Pensei um pouco sobre o assunto.
– E por que não? – perguntei ­–  ­ Vai ser bem interessante!

PEDRO
Me chamo Pedro, e faço Filosofia, não sou  um estudante de grande destaque, nem na época da escola eu era, mas lembro muito bem dos comentários de alguns professores, “muito inteligente mas preguiçoso!” E de fato era mesmo, faltava muito isso é verdade, no entanto nunca reprovei. Não era o mais popular, afinal não podia ser considerado rebelde e nem era tipo interessante para as meninas, sempre tive um mundo bem meu, sempre fui assim um pouco filosofo, e não foi surpresa eu acabar ingressando neste curso.
Por consequência da minha personalidade singular, não era um garoto de muitas meninas, também não posso dizer que tenha me apaixonado. Tive algumas namoradas, cheguei a dizer que as amava, mas agora pensando nisso não acho que tenha amado realmente. Nunca tinha sentido aquelas paixões arrebatadoras, cheguei a ficar triste por estar longe de algumas garotas e vi algumas chorarem quando terminamos.
Uma pergunta frequentemente vinha a minha cabeça ultimamente: por que logo eu que já começava a achar que era bloqueado para essa questão de paixão acabei me apaixonando por duas meninas ao mesmo tempo? Não achei resposta. Mas sempre que pensava nisso uma música do Raul Seixas vinha a minha mente:
...Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar...

... Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade...

Eu as conheci em situações diferentes, e elas eram tão diferentes tão lindas, tão singulares, sempre ouvi as pessoas falarem em um só amor na vida, eu nunca acreditei nisso, e agora de uma tacada eu achei dois, ao mesmo tempo. Eu realmente gosto das duas, não por serem parecidas, é justamente por serem diferentes, gosto de maneiras diferentes nem mais nem menos só diferentes, e gosto muito delas.
Eu sei que é difícil compreender que parece que as estou traindo, mas não vejo assim, não menti para elas, falei que estava com outra garota para ambas, claro que a reação não foi boa, eu pude ver o sofrimento em seus olhos, não quero me justificar, mas doeu em mim também. Sei que muitos pensarão, “assim é fácil ele ficou em uma situação confortável com duas garotas!” Mas isso não é verdade ao contar para elas eu fui sincero, e não falei que pretendia ficar só com uma, também não tive coragem de propor continuar com as duas ao mesmo tempo nem achava que elas aceitariam. Eu podia sentir elas escorregarem por entre meus dedos, sabia que as estava perdendo. Mas não podia escolher, de uma coisa eu sabia e não era fácil aceitar isso, mas eu sabia que, ou seria as duas ou nem uma.
 Não posso explicar o tamanho de minha surpresa ao voltar da faculdade e ver as duas juntas conversando como velhas amigas na entrada da minha rua. Elas me esperavam, e foram longos os metros que percorri ao encontro delas, não sabia o que esperar, não sabia como proceder, mas elas não pareciam bravas nem tristes, na verdade sorriam.
Quando ficamos frente a frente os três o silencio imperou por alguns instantes foram elas que começaram a rir, eu diria que ao mesmo tempo, eu ri junto e a tensão se foi. Conversamos enquanto íamos até minha casa, eu não convidei, não precisava. Elas me contaram como se conheceram, e como tinham gostado uma da outra, conversamos bastante e rimos bastante, quando dei por conta estávamos os três sentados em minha cama conversando.
Fui eu quem começou a falar sobre nós, estava tudo muito bom e tinha medo do que estava por vir, mas tinha de saber, a conversa sobre esse assunto foi um pouco tensa no começo meio sem rumo, mas desenrolou bem elas estavam reagindo melhor do que eu esperava.
Fomos nos aproximando, beijei Sofia, depois Sákura, então elas se beijaram,  e tudo fluiu tranquilamente sem pressa, eu as conhecia bem, mas elas estavam se conhecendo, foi incrível, eu nunca tinha estado com duas garotas ao mesmo tempo, isso foi melhor do que pensei.
Agora estou aqui deitado com elas e isso parece tão surreal, estou morrendo de sono, Sákura esta me olhando de uma maneira que me deixa louco, enquanto Sofia sobe em mim, acho que vamos começar novamente estou um pouco atordoado ainda estou extasiado, não consigo entender mas acredito que elas estão conversando... estão sim... algo sobre amor, sobre amor eterno sobre em estar para sempre com elas, eu digo que sim... sim... Sákura me beija e Sofia tem algo na mão não sei por que, mas uma musica do Raul me veio cabeça:

"...Por que, meu querido
Por que, meu amor
Cravaste em mim teu punhal?
Meu peito tão jovem sangrando assim
Por que esse golpe mortal?...
...Assassinei quem amava
Num gesto sagrado de amor ...”

Doeu um pouco, mas agora não dói mais, elas parecem felizes, elas comentam alguma coisa, acho que estão sorrindo, não sei ao certo, faço um esforço e abro os olhos... sim elas estão felizes eu também estou eu acho.

SÁKURA
Foi tão maravilhoso, tão sublime. Estou feliz de ter conhecido a Sofia, sem ela não teria sido tão bom, já tinha ficado com uma garota antes, mas nunca tinha ido tão longe. E Pedro parecia tão feliz tão completo, seu sorriso estava mais lindo do que nunca, mas tinha que ser só meu por mais que gostasse dela, não podia dividir o sorriso dele.
Agora não tenho dúvidas, eu o amo e sei que ele também me ama. Ele esta sorrindo para mim agora, vai estar sempre sorrindo, o colar que fiz com os dentes ficou perfeito, um sorriso perfeito, pretendo usar sempre ele estará sempre comigo e todos saberão que ele ri para mim.
Alguém está batendo na porta, estão gritando algo como: “abra” e “policia” eu não estou prestando atenção, não preciso deles agora tenho o sorriso dele só para mim.

SOFIA
Quando fecho os olhos ainda posso ver ele naquele momento, e sei que estava feliz, mas como poderia não estar, estava tudo perfeito, foi lindo. Eu nunca havia beijado uma garota, quanto mais ir tão longe, no entanto isso foi melhor do que podia imaginar, porém só foi perfeito por que ele estava lá. Seus olhos me fitando eram tudo o que eu precisava, como precisava daquele olhar. Eu simplesmente não podia dividi-lo nem mesmo com a Sákura, e sei que ela me entende.
Agora eu sei que nunca tinha amado antes, agora sei o amor completa, e me sinto completa por que sei que ele também me ama, e sei que olha só para mim. Não foi difícil conseguir o formol na faculdade, e eu tinha que conseguir pois sem ele os olhos poderiam perder esse brilho que eu sei que é para mim, só para mim. O por do sol está lindo, fico feliz por estar na praia, e mais feliz ainda por ele poder assistir comigo.
O silencio estava tão gostoso até aparecerem essas sirenes, e o pior é que parece que elas vem nessa direção, mas não importa porque o sol está quase se pondo e ele só tem olhos para mim.

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