(Continuando a ultima postagem)
2
(...)“Ele esta obcecado” pensou Larry enquanto
caminhava pelas ruas, “mas afinal não será estranho eu não estar?” Não sabia
como agir tinha morrido de uma maneira no mínimo impensável, isso sem falar que
o simples fato de que morrer é em si algo assustador pelo menos era quando
estava vivo, agora que vagueava sem ser visto pelas ruas não tinha medo, talvez
fosse tudo uma questão de perspectiva, estava morto o que mais poderia temer?
Sua mãe que sempre fora muito religiosa o ensinara a temer o inferno, mas desde
a faculdade tinha se tornado extremamente cético. Mas ele estava ali, era uma
espécie de fantasma e isso era outra coisa que duvidara sinceramente enquanto
estava vivo, no entanto estava ali semitransparente aos próprios olhos e
totalmente invisível para as pessoas.
Também tinha se mostrado equivocado quanto à existência de monstros, tinha sido
devorado por um. Não saberia dizer o que “aquilo” era, não se via pernas ele
parecia rastejar, mas fora rápido o suficiente para alcançá-lo e tinha a
impressão que podia ser ainda mais rápido se fosse necessário, eram três braços
ou que quer que sejam, em que pontas pareciam ser ventosas não se percebia uma
cabeça os olhos eram grudados naquilo que podia se identificar como corpo e uma
boca gigantesca que só se identificava quando ele a abria, não chegou a ver
dentes mas a julgar barulho que seu corpo fazia enquanto era devorado... Larry
sentiu-se enjoado ao trazer a tona tais lembranças, balançou a cabeça e
continuou caminhando.
Era estranho andar sem ser notado, no começo
desviava das coisas depois percebeu que isso não era necessário, mas algumas
vezes ainda se assuntava quando alguém vinha muito rápido em sua direção, por
vezes se viu esperando o sinal fechar para atravessar a rua, no entanto quando
tentou passar sem se preocupar, os carros passaram muito rápido por ele que
sentiu-se tonto e assustado e correu até a calçada, parou do lado de um homem
que por um instante pareceu poder vê-lo, pareceu que o olhava nos olhos, eram
olhos azuis, mas não eram como os que já tinha visto. Esses eram antigos, não
velhos só antigos cheios de vida, uma vida anormalmente longa, o homem era alto,
estava com a barba mal feita e usava um sobretudo marrom, quando o sinal abriu
para os pedestres o homem continuou o próprio caminho, como se não tivesse visto nada.
Mesmo sem entender o porquê, acabou o seguindo,
ele andou alguns quarteirões e quando Lerry começava a se perguntar se devia
voltar o homem entrou em um hotel. Segui-o até o quarto e ficou a observá-lo.
Sabia que não fazia sentido o que estava fazendo, mas desde que fora devorado
por um monstro e virado uma espécie de fantasma passara a pouco se importar com
o sentido das coisas. Quando o sujeito estava preparando-se para o banho Lerry
sentiu-se desconfortável por ver outro homem despir-se, mas não pode deixar de
notar o quanto o corpo dele estava coberto por tatuagens, a maioria pareciam
muito antigas e estavam um pouco desbotadas, eram todos símbolos estranhos,
alguns até conhecia, mas a maioria não. Foi para sala e esperou lá, depois de
alguns minutos o telefone tocou, o homem atendeu e autorizou alguém a subir.
Menos de três minutos o visitante batia na porta,
ainda enrolado na toalha o homem abriu a porta, no outro lado estava um sujeito
bem arrumado, trajava um belo terno, por baixo uma camisa preta com um
colarinho romano, provavelmente era padre ou algo do gênero, tinha o cabelo
penteado para traz.
– Olá Piatã¹ – disse o visitante.
– Faz muito tempo desde que fui chamado assim.
– Sim, eu sei, mas sei também que você não mudou
tanto durante esse tempo.
– O que você quer?
– Trazer o que você nos pediu.
– Eu não pedi nada. – disse Piatã desconfiado.
– Bem, isso é verdade, mas mesmo assim trouxe
algo que você teria de nos pedir pois já não pode achar em outros lugares.
Eles se encaram por um tempo, Larry sentia-se
assistindo um reality-show e nunca fora muito fã desse tipo de programa, mas
algo nesses homens o deixava curioso.
– Tudo bem entre – disse Piatã dando passagem
para o homem.
Ao entrar o visitante passou por entre Larry, e
ao fazê-lo por um breve momento pareceu sentir algo, hesitou por um estante e
depois seguiu, sentou-se em uma cadeira junto à mesa que estava na cozinha.
– Me chamo...
– Me mostre o que tem – disse Piatã o
interrompendo.
O visitante sorrio, abriu a sacola que tinha no
bolso e tirou três velas amareladas. Piatã olhou atentamente as velas segurou
uma por um tempo nas mãos e falou:
– O que me impede de simplesmente matá-lo e ficar
com elas?
– Gostaria de dizer que é seu caráter, mas
obviamente você sabe que se fizer isso não terá acesso a outras. – disse o
visitante sorrindo.
– Essas me darão muito tempo, posso pensar em uma
solução – insistiu Piatã.
– Sim, mas após tantos séculos elas parecem
queimar mais rápido não? Eventualmente você vira atrás de nós, e sabe muito bem
que não nos esquecemos.
– Então me diga qual o preço?
– Essas já são suas, como prova de boa vontade.
– Como você mesmo me falou os conheço, e sempre
tem um preço, me diga qual?
O visitante, pensou um momento, sorrio e disse:
– Essas são suas não se preocupe, considere um
favor, e quem sabe nós começaremos uma amizade, você sabe que ainda somos os
melhores fornecedores, não só para isso – disse apontando para as velas – para
muitas outras coisas. O que acha Piatã
– Não me chame assim, esse nome faz parte do
passado e não faz sentido aqui.
– Como devo chamá-lo então? Quem sabe o nome que
usou para se registrar no hotel? James não é?
– Fale logo o que quer.
– Como havia dito antes, foi um presente – disse
o homem levantando-se indo em direção a porta – creio que nos veremos
novamente.
Antes de sair ele parou na porta olhou o recinto
como se procura-se algo e disse:
– Pelo jeito não fui o único a lhe procurar não é
mesmo, creio que você já sentiu a presença dele?
– Sim – disse James – olhando diretamente para
Lerry – eu o percebi desde que começou a me seguir.
– Então sentiu a marca que ele carrega também.
– Sim.
Lerry estava atônito, não sabia como agir era
óbvio que falavam dele, e aquele que tinha seguido definitivamente parecia
vê-lo. No entanto não entendia o eles queriam dizer com “a marca que ele
carrega”.
– Ele vai precisar de ajuda – disse o homem
parado na porta.
– Você esta preocupado com isso?
– Não, esse é um problema seu. – disse fechando a
porta atrás de si.
Ao chegar à rua o padre olhou em volta a procura
de alguém, que surge sorrateiramente atrás dele, o assustando.
– Já disse para não fazer isso Abdias, você me
assustou! – reclamou o padre.
– Você falou com ele?
– Sim
– e então?
– Dei as velas a ele.
– Ele jurou lealdade?
– Óbvio que não.
– Então porque entregou as velas – reclamou
Abdias irritado.
– Porque sou mais inteligente que você. Há muito
tempo ele jurou lealdade e isso não o impediu de deixar nossa ordem. Ao mais,
agora ele nos deve um favor e isso é o máximo que vamos conseguir dele.
– Mas se você já usou isso para fazê-lo destruir
aquela coisa ele deixará de estar em débito conosco.
– Não precisei fazer isso, de alguma forma ele já
está envolvido.
– O que garante que ele vai mesmo fazer isso?
– Nada, é mais um palpite do que uma certeza. De qualquer
forma nós vamos até lá essa noite para averiguar. (...)
Continua
¹
nome de origem tupi, significa: forte, vigoroso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário