Continuando as duas ultimas postagens...
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– Você pode me ver? – perguntou Lerry a James –
Pode me ouvir? – mas ele não esboçou reação nem uma, olhou sem expressão a
porta por um tempo depois levantou-se pegou as velas e foi até o quarto, em seu
criado mudo estava um candelabro velho esculpido em madeira, sem detalhes e com
o verniz descascando. Era um candelabro para três velas mas havia somente uma
apagada que já estava pela metade, ele pegou duas das velas que o lhe tinham
trazido e com cuidado as colocou no candelabro, a terceira enrolou em uma
flanela e guardou na gaveta do criado mudo. Pegou uma faca e uma caixa de
fósforos que estavam na mesma gaveta, com a faca fez um corte profundo no
antebraço, o sangue verteu vermelho e muito expeço. Com o braço ainda sangrando
acendeu uma das velas novas e antes de apagá-la olhou para o antebraço o corte
cicatrizou instantaneamente sem deixar cicatriz, mas não foi só isso Lerry
podia jurar que aquele homem tinha ficado mais novo, não dava para ter certeza
mas ele estava mudado, ao menos estava com uma expressão melhor, antes parecia
muito cansado, agora estava rejuvenescido.
– Sei que você esta ai, – disse James – no
entanto não posso te ver nem ouvir, mas sinto sua presença e junto com ela a
marca do que o matou, não sei o que é, e provavelmente você também não, mas
mesmo assim, talvez fosse bom ouvir o que tem a dizer, talvez de um jeito nisso
até o anoitecer.
Deitou-se e depois de um tempo adormeceu, Larry
não sabia o que fazer, no entanto esperou, apesar de não ter dormido desde que
morrera, sentia-se tão bem quanto podia naquela situação, nunca tinha pensado
se fantasmas dormiam, mas aparentemente não precisava disso. Tantas coisas o
qual estava enganado, sempre fora um ateu convicto, ainda não sabia se
acreditava em Deus, mas antes duvidava de tudo da existência de vida pós morte
de fantasmas e duvidava acima de tudo da existência de monstros.
De repente percebeu que estava cansado sim, não
fisicamente, pois não tinha um corpo físico pra isso era sua mente que estava
cansada, mas isso já vinha de antes de morrer. Antes estava cansado da vida e
isso era no mínimo engraçado agora que estava morto, não gostava do trabalho
não gostava do patrão, nunca tinha se casado, certa vez até se apaixonou por
uma garota, ficou com ela um tempo, mas ela foi embora sem explicar sem dizer
adeus, ele achou que choraria mas não chorou, ninguém ouviria, ninguém
realmente ouve, também não sabia se queria que ouvissem.
Depois disso ficou muito tempo sem ninguém,
“estou cansado de estar tanto tempo em minha companhia” pensou. Desde antes de
sua morte a palavra solitário parecia cada vez mais adequada.
Passou as mãos no rosto e não pode sentir a barba
por fazer, não pode sentir o próprio rosto. Sentiu uma crescente incoerência em
sua mente, uma incontinência de ideias e uma total falta de simetria entre elas,
achou que entraria em pânico, mas não entrou, talvez não pudesse fazê-lo agora.
Sentia-se vulnerável, e carrancudo a perna
coçava, mas quando levou a mão era como se não houvesse perna. Olhou as mãos
semitransparentes e não sabia o que sentir.
Estava morto e tudo o que sentia era apatia, um
declínio ao desinteresse. Sentiu vergonha da própria inabilidade que tinha com
seus sentimentos enquanto era vivo. Muitas vezes parecia estar na beira de um abismo,
agora percebia que o abismo estava dentro dele, na verdade ainda continuava ali
escuro e profundo. Teve vontade de pular
e esconder-se ainda mais dentro de si próprio. Mas no fim onde isso o levaria?
Antes sentia-se solitário, mas só agora entendia realmente esse sentimento, e
isso sim o amedrontava.
Olhou para cama e o homem que no mesmo dia fora
chamado de Piatã e James estava dormindo profundamente, tentou imaginar quem
ele era, sua história, como ele poderia ajudar, mas não tinha ideia e também
não podia perguntar, mas ainda sim algo o prendia ali, algo no fundo de sua
mente o fazia esperar, a principio achou que era curiosidade, mas não era isso,
o que sentia era esperança, algo nele inspirou esperança, não entendia como,
mas estava mais claro agora, de alguma maneira sentia-se esperançoso.
Olhou novamente e ele havia acordado, olhando
para o teto.
– Hora de falar com você, já esta escurecendo e
pretendo resolver isso o quanto antes. – Disse James levantando-se e abrindo o
armário de lá tirou uma mochila e dentro dela a um papagaio morto, uma barbante
que parecia feito de ouro e um giz branco. Com o giz fez dois círculos no chão
desenhou alguns símbolos em volta que Lerry nunca tinha visto, esticou o
barbante entre os círculos com um laço em cada ponta pegou o papagaio e devia
estar fedendo pois ele torceu um nariz quando o colocou dentro de um dos
círculos, outra coisa que Lerry não tinha pensado, não sentia cheiro. James
colocou um laço no pescoço do papagaio pegou seu candelabro e colocou no
círculo também.
– Como não sei seu nome nem tenho nada seu como
um fio de cabelo, peço a você que entre no círculo e coloque um pé no laço.
Larry, mesmo estando desconfiado, achou que não
tinha muito mais o que perder e obedeceu.
– Agora suponho que já esteja dentro do círculo –
disse James e fez um pequeno corte na mão e com o sangue desenhou outro símbolo
no papagaio e acendeu a vela, como antes o corte cicatrizou, mas para espanto
de Lerry o papagaio ganhou vida, a bem da verdade, parecia mais um papagaio
zumbi, os olhos estavam vidrados sem vida no entanto levantou e ficou ali meio
cambaleante. James entoou um cântico em
uma língua que Lerry nunca ouvira antes e o laço que estava em baixo de seu pé
apertou no tornozelo e ele sentiu queimar. Isso talvez tenha sido que mais o
surpreendeu acreditava que nunca mais sentiria dor, e pela primeira vez pensou
que talvez existissem coisas piores do que a morte.
– Fale – disse James, mas Lerry ainda confuso não
soube o que fazer – vamos, fale não temos muito tempo a mágica sempre cobra seu
preço. Diga-me seu nome?
– Larry – respondeu, mas a voz que ouviu não foi
a sua e sim a estridente e aguda do papagaio.
– Bom, agora me diga o que aconteceu no dia em
que morreu, fale rápido mas não se esqueça dos detalhes eles são importantes.
Lerry narrou os fatos a partir do momento em que
cruzou o terreno baldio e contou tudo o que lembrava e quanto mais contava
melhor se lembrava, no fim de dez minutos havia falado tudo até o momento em
que começar a seguir James. Acreditava não ter deixado nem um detalhe de lado.
Satisfeito o homem em sua frente balançou a
cabeça e apagou a vela no mesmo instante o papagaio caiu novamente morto e o
laço em seu tornozelo afroxou.
– Espere... – tentou falar, mas à voz já não era mais
a do papagaio e soube que não seria ouvido. James abriu o armário, afastou as
roupas e de um fundo falso, tirou três espadas, Larry não era um conhecedor de
espadas, mas essas podia diferenciar a primeira que tirou era uma katana
japonesa em uma bainha simples que ele contemplou por alguns instantes antes de
tirar uma espada muito maior e pesada, era uma espada medieval muito bonita com
uma bainha que parecia ser de cobre. O cabo era entalhado e parecia ter filetes
de ouro, a terceira espada era provavelmente uma cimitarra, certa vez lera em
alguma revista que as cimitarras verdadeiras eram diferentes das representadas
em filmes, eram menores e extremamente ágeis podendo ser usadas só com uma mão,
diferente das corpulentas e pesadas cimitarras de Hollywood.
Essa era maior que a katana e menor que a
medieval não tão simples quanto à japonesa, porém não tão soberba quanto á
européia. Tinha a bainha de couro com símbolos estampados e apesar de ser
simples era elegante, mas ficou realmente surpreso quando ela foi desembainhada,
aparentemente era feita de ouro. Era obviamente uma espada para enfeite uma
decoração, pois ouro certamente não era o melhor metal para uma espada.
James guardou a katana, colocou a medieval nas
costas e a cimitarra na cintura vestiu seu sobretudo o que disfarçou bem as
espadas, exceto cabo da espada em suas costas que se projetava ao lado de sua
cabeça, mas ao levantar a lapela que era anormalmente grande, o cabo passaria despercebido,
pegou na mochila três pequenos potes de vidro transparente, dentro havia uma
espécie de liquido alaranjado que mais parecia fumaça e com muito cuidado os
colocou em bolsos separados.
Continua...

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