domingo, 30 de maio de 2021

Sinto



Sinto-me explodindo, incoerentemente cansado, mas livre. Tão livre quanto um peixe em um aquário, sem saber que o oceano existe.

Sinto que li Clarisse sem nunca tê-la lido. Sinto que entendo o meu eu a partir do que não li dela, e na negação da negação, reconheço o meu não eu nos meus escritos.

Sinto vontade de ser despudorado, de ser vulgar e sexual. Sinto que sinto, tendo isso sentido ou não.

Sinto-me em mim mesmo, e com saudade do que não fui, com fome do que não comi e com raiva do que não aconteceu.

Sinto lágrimas em meus olhos, sinto solidão e não sei o que é solitude.

Sinto-me envergonhado, castrado, enredado e “des-graçado”.

Sinto-me implodindo, e interiorizando toda essa desconexão.

Sinto que implodo meu eu, e nego. Nego a incerteza e a indelicadeza de minhas palavras.

Sinto a raiva expressa em meu maxilar, a doença em meus olhos e a cura na saudade.

Sinto a frustração do não eu e tristeza do não ser e a vergonha do não estar.

Sinto-me vazio.

Sinto esperança ao me esvaziar, mas apavorado por sentir esperança, pois conheço Pandora.

Sinto que estou me perdendo, e perdendo as palavras.

Sinto que chego ao fim, que morro com este final, e fico esperançoso com isso.

Sinto falta, mas sinto tanto a falta, que me esqueci como é sentir saudades.

Enfim, sentindo esvazio-me de sentido.

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